domingo, 19 de março de 2017

Será saudade da caverna?


                                                                                     

“Sempre gostamos de considerar-nos menos selvagens do que os outros animais. Dizer que pessoas são humanas é dizer que são bondosas. Dizer que são bestiais, brutais ou simplesmente que se comportam como animais é sugerir que são cruéis e más. Raramente paramos para considerar que o animal que mata com menos motivo para fazê-lo é o animal humano.” Peter Singer

Nenhuma espécie que tenha passado por este planeta foi capaz de tamanho mal e destruição. Nos voltamos contra nós mesmos covardemente. Desprezamos o diferente de nós. Nos voltamos contra as outras espécies outorgando-nos direitos e propriedade sobre elas. Nos voltamos contra o lugar onde vivemos a ponto de achar que a natureza é uma coisa sem importância. Nos queixamos da violência e a perpetramos e perpetuamos diariamente, esquecendo a ética quando se trata dos nossos interesses pessoais.

E se existisse um mundo ideal? Um mundo totalmente separado deste em que vivemos, você gostaria de ter acesso a ele e diminuir a distância entre quem é você e quem você gostaria de ser?

Platão nos propõe que saiamos da caverna para conhecer a realidade. Que saiamos da escuridão e retiremos o véu da ignorância para que possamos enxergar a verdadeira realidade e conquistar o pleno conhecimento. Porém Sócrates sugere que somos como um rebanho de carneiros e necessitamos de um pastor para sobreviver. Sendo assim, sairíamos da caverna, porém veríamos os dias com os olhos de outro, acentuando nossa postura de mera contemplação no mundo. Acreditando que tudo já foi pensado e solucionado. Acreditando que a realidade e a verdade seriam apenas um modelo a ser seguido sem ser questionado, porque seria pré-estabelecido.

Quando a pessoa perde a capacidade de pensar, de indagar o mundo ao seu entorno apenas aceitando aquilo que lhe é transmitido, passa então a preocupar-se exclusivamente com os seus problemas e deixa morrer a única característica que a distinguia dos demais animais: o poder de pensar e questionar novas formas de viver e que possam nos remover da Caverna.


                                                         




segunda-feira, 13 de março de 2017

Março, o mês das resoluções!



                                                                 

Passado o carnaval - festa onde o povo aproveita para reinar absoluto e transgredir sem remorso ou punição todas as regras - finalmente o ano começa. É quando tudo volta à rotina habitual, já que março definitivamente é o mês da arrancada para a maioria das pessoas. É o momento para reavaliar objetivos e levá-los a cabo. Porém a maioria nem sai do papel. E não é necessariamente por falta de vontade, mas sim ausência de planejamento. Por isso, não adianta apenas fazer resoluções aleatórias sem traçar nenhum plano concreto.

Os últimos dois anos foram importantes e decisivos nesse sentido, pois as dificuldades e necessidades do dia a dia me fizeram descobrir que um bom planejamento pode mudar de forma significativa as perspectivas de um futuro promissor. E para isso foi necessário traçar objetivos claros e hierarquiza-los de forma racional, ou seja: conhecer meus limites, recursos, e saber como, e quando usá-los a meu favor.
Essas são regras básicas, mas que desde então tem me ajudado muito, pois com elas tenho conseguido explorar meus talentos, fortalecer minhas fraquezas e consequentemente desenvolver as habilidades necessárias para minha vida atual, traçando as metas que serão benéficas para mim. E essa é a única maneira de transformar toda e qualquer meta em realidade, ou seja, através da ação. Porque saber o que se quer não adianta de nada, se não fizermos o que tem que ser feito, pois nada de significante vai mudar em nossas vidas se não agirmos diariamente para isso.

Portanto assim que você tiver seus projetos definidos, comece imediatamente a criar o ímpeto de agir. Se possível dê o primeiro passo de onde você está e no momento em que decidiu faze-lo. E lembre-se: até que você atue, tudo o que fizer não passará de imaginação. Mesmo que seja um pequeno passo, o importante é ir em frente, aproximar-se um pouco mais dos seus objetivos, todo santo dia, pois somente a ação diária, constante e consistente é a única maneira de fazer acontecer. O resto é conversa. 

Talvez por isso nosso cérebro não se encante diante alguns projetos, e a maioria não consiga sequer vencer a luta contra a balança. Porque convenhamos, é bem mais atrativo formular planos mirabolantes e sem futuro, do que enfrentar a realidade e se dispor a fazer o trabalho duro, diário, cotidiano e repetitivo. 

Mas vale a pena. Quando olho para trás e reviso o que já consegui de concreto, vejo que essa é a maior recompensa pelo meu empenho e coragem.











sexta-feira, 10 de março de 2017

Unir-se pelas semelhanças – Esse parece o objetivo!


                                                                        


As pessoas querem ser únicas e expressar sua verdadeira identidade. Ao menos esse tem sido o discurso. Porém a necessidade de diferenciar-se, e ao mesmo tempo ser reconhecido por esta pretensa diferença, é o que torna a todos nós cada vez mais parecidos. Uma contradição, mas que talvez se explique - não justifique - se pensarmos na fragilidade do eu diante da pluralidade de ofertas, promessas e oportunidades que o mercado nos oferece para nos “distinguirmos da massa”.

Concordo que é difícil viver com autenticidade e independência quando essa grande máquina articulada, dissimulada e organizada cria um verdadeiro sistema de submissão que nos explora ao máximo, praticamente nos obrigando a nos encaixarmos em um padrão, o que pouco a pouco nos faz perder completamente a autenticidade e tudo aquilo que nos torna únicos e diferentes de todos os outros.

E assim nos tornamos uma somatória de indivíduos que, em conjunto já não fazem mais sentido, senão o de constituir uma infinidade de categorias nem sempre representáveis e verdadeiras. Um engendramento onde operam mecanismos de identificação que se realizam através do olhar do outro. Um caminho escorregadio onde a única companhia é a de si próprio, mas que pouco a pouco vai se estranhando a cada passo dado.

Uma lástima, porque ao afirmarmos nossa singularidade criamos uma marca pessoal, aportamos valores e nos tornamos memoráveis. 


Pense nisso...







quarta-feira, 8 de março de 2017

A mulher na modernidade – sobre a maternidade...


                                           

Durante o século 19, mulheres não podiam estudar porque médicos e cientistas acreditavam que ao estimularem o uso do cérebro seus ovários poderiam atrofiar, impedindo-as de gestar. No século 20, em tempos de guerra a maternidade era amplamente incentivada como uma forma de estimulo à família, mo intuito de aumentar o número de soldados e, em tempos de paz, incrementar o mercado consumidor.

A única interrupção aos elogios e incentivo à maternidade ocorreu em meados do século 20, quando surgiu o movimento feminista. E junto com o movimento vieram os questionamentos a maternidade obrigatória, a proibição da interrupção da gravidez por vontade da gestante, a necessidade de casamento para constituir família, as dificuldades para conciliar trabalho e maternidade, a falta de políticas públicas para mães solteiras, os limites e possibilidades da paternidade e, inclusive questionavam e analisavam se o sentimento materno seria algo inato ou construído socialmente.

Ou seja, desde aquele tempo já se questionava a cerca da afirmação de que a realização da mulher só ocorre na maternidade, abrindo espaço para a diversidade e trazendo conforto e apoio para muitas mães que não se enquadram nessa lógica tradicional. Mulheres que não se alinham com esse ideal de mãe perfeita construído pela sociedade em geral e por cada família em particular, que cobra dessas mulheres um amor incondicional por seus filhos, sendo que muitas vezes elas não vivenciam a maternidade dessa maneira.

Ocorre que o conceito de amor materno foi assimilado de forma contundente e por muito tempo não questionável, como se fosse uma situação “sine qua non” tipo: mulher é = gestar, maternar.  Ou seja, uma característica feminina, um dom, um sentimento instintivo e estritamente biológico que todas as mulheres devem vivenciar. E esse sentimento começa a ser transferido na infância, quando treinamos com nossas bonecas o papel de boa mãe, a perfeita, aquela que é capaz de enormes sacrifícios, a sempre amável, tranquila, compreensiva, equilibrada, acolhedora e feminina em tempo integral. A imagem romanceada da maternidade e da mulher construída ao longo dos séculos, e incapaz de admitir qualquer vestígio de sentimentos ambivalentes nas mães.

Mas a maternidade em todas as suas formas, aquela que acontece no dia a dia não pode ser confundida com a maternidade que a gente idealiza, porque está distante disso. Muito menos com aquela que nos vendem, porque essa é impossível. A maternidade de verdade não é ensinada nem mesmo discutida, ao menos até que os problemas aconteçam. E aí descobrimos sozinhas. E dói.E não me refiro somente às dores do parto e pós-parto, do aleitamento - e vale dizer que amamentação não só dói, mas também pode não acontecer, o que gera outra fonte de stress e preocupação - a privação de sono, as metamorfoses na vida conjugal, pessoal, profissional, a ansiedade e o medo.

Enfim, são vários os processos que ocorrem desde o momento em que é confirmada a gravidez. Inclusive a construção do amor, que para algumas mulheres é conquistado e construído na convivência e intimidade da relação mãe e filho. Que é o que eu realmente acredito, pois amor não é fruto de nada etéreo, a não ser de muito empenho, cuidado e investimento daqueles que integram uma relação amorosa, seja ela qual for. Por isso escolhi esse tema para o dia internacional da mulher. Porque penso que apesar das vozes contrárias, a maternidade não é uma missão sagrada nem tão pouco uma obrigação de quem nasce mulher. Maternidade não é um dever, mas sim uma escolha. Um direito que pode ser exercido se a mulher assim o desejar.  

Por isso é preciso parar de julgar e etiquetar as mulheres que são e pensam de forma diferente, porque isso é no mínimo cruel. E prova disso foi o que ocorreu com Juliana Reis, que se negou a participar de um desafio lançado no Facebook, cuja proposta era compartilhar fotos “felizes da maternidade”. Juliana no entanto optou por mostrar sua experiência real, que descreveu como cansativa e dolorosa. Em um trecho disse: “Quero deixar bem claro que amo meu filho, mas odeio ser mãe”. E seguiu: "Vou lançar outro desafio, o desafio da maternidade real. De tudo o que as mães passam e as pessoas não dão valor, como se toda mulher já tivesse sido programada para viver isso. Postem fotos de desconforto com a maternidade e relatem seus maiores medos ou suas piores experiências para que mais mulheres saibam da realidade que passamos. Dizem que no final sempre acaba tudo bem, mas o meio do processo é lento e doloroso".

Rapidamente o post contabilizou quase 80 mil curtidas, em apenas um dia. E somem-se a isso milhares de comentários de apoio e, principalmente de protestos com relação à postura da mãe - alguns deles afirmando que a jovem estaria sofrendo de depressão pós-parto. Horas depois o perfil de Juliana foi denunciado e, em seguida, bloqueado. 

Definitivamente é preciso respeitar as diferenças, compreender as inquietações de cada um e entender que a plenitude ou não da maternidade não deve ser mensurada ou potencializada por ninguém, pois esse é um momento único, e cabe somente a pessoa que o vive, o que é certo, já que cada um constrói sua subjetividade de acordo com as experiências vividas.


Ainda há muito a ser discutido para que as pessoas se libertem das visões preconcebidas e entendam que a maternidade não é, nem nunca foi o único caminho aceitável na vida de uma mulher. A maternidade na verdade é bem mais difícil de viver do que em geral se crê. 






quinta-feira, 2 de março de 2017

Bartho - Um amor inesquecível...


                                               

Acordei no meio da noite 
e dei de cara com ele. 
Ali, com seu corpo estendido e imóvel, 
deitado ao lado do meu. 
O que convenhamos é uma delicia, 
ainda mais com aquela expressão de serenidade, coisa que só o sono confere, 
depois de um dia agitado.

Aproximei-me um pouco mais
 e pude sentir sua respiração. 
E não aguentei. 
Arrisquei e fiz um carinho. 
Um leve toque, 
um pequeno afago, 
um roçar de dedos.

Foi quando ele acordou. 
E com aqueles olhos imensos e vivazes 
olhou e me sorriu. 
Do jeitinho dele, 
feliz só porque me viu.

E isso contece com certa frequência. Espontaneamente, 
sem que eu peça.

Por que é mesmo que os cães não devem dormir na nossa cama?