domingo, 26 de fevereiro de 2017

Onde encontrar a esperança?





Qual o desenho do novo cenário mundial? Quais são suas principais características e como dominarão nos próximos anos?

A degradação estratégica dos EUA já começou. O sonho americano parece chegar ao seu fim, enquanto que o sonho de uma Europa forte e unida desaparece. Há crises por todos os lados. Na realidade não estamos suportando uma crise, mas uma série de crises. É uma soma de crises mescladas tão intimamente umas às outras que não conseguimos distinguir entre causas e efeitos, porque os efeitos de umas são as causas das outras. Ou seja, enfrentamos uma autêntica crise sistêmica no mundo, e isso provoca nas pessoas uma tremenda onda de frustração, angústia, medo e ressentimento. Junte tudo isso e o resultado é o ódio e o repúdio ao outro.

As pessoas estão profundamente desencantadas. A própria democracia como modelo perdeu credibilidade. Os sistemas políticos foram sacudidos. Na Europa os grandes partidos tradicionais estão em crise. Nos Estados Unidos o presidente Donald Trump, dono de uma retórica conservadora, maniqueísta e reducionista vem causando alvoroço com suas exigências narcísicas e seus ataques que desconsideram e desrespeitam o direito da alteridade à diversidade. Um apelo aos baixos instintos de certos setores da sociedade, conferindo um caráter de autenticidade.

Com Donal Trump uma nova cara emergiu dos Estados Unidos. A mudança no discurso político norte-americano, obra das esquisitices e provocações de Trump continuam a nos surpreender com suas afirmações altamente contestáveis, quando o assunto é diplomacia mundial, comércio internacional e liberdade de expressão. Sequer parece lhe preocupar que suas declarações possam ser consideradas levianas e perigosas. E muito menos dá importância às consequências previsíveis e assustadoras que as mesmas possam representar.

Porém, há que lembrar que práticas e disseminação de ideias que ameacem os direitos democráticos podem ser perigosas. Quando a atitude ou a ideia fere os princípios da democracia e a integridade da vida humana, não se pode tolerar.

E subestimar o mal é extremamente perigoso, porque os discursos de ódio podem instigar forças humanas destruidoras.  E destruição é um tema que já tomou as rédeas da vida coletiva, se espalha rápida e sem limites atravessando fronteiras assustadoras ao redor do planeta. 














quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

Tempo...





Tempo, Tempo, Tempo, Tempo
E quando eu tiver saído
Para fora do teu círculo
Tempo, Tempo, Tempo, Tempo
Não serei, nem terás sido
Tempo, Tempo, Tempo, Tempo

“Oração ao tempo”, música de Caetano Veloso
      
             



O que seremos no amanhã 
desse tempo que já não terá sido?
Realizaremos o milagre de segurar o tempo?
Ou o tempo já nos terá levado
 tudo aquilo que haveria de ter sido?







segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Viajar é preciso! Dar significado, mais ainda...




Com toda a tecnologia que hoje dispomos, comodamente podemos passar do bairro em que vivemos para qualquer outro lugar no planeta, bastando apenas um mapa via satélite disponível na internet, um zoom poderoso capaz de transformar um amontoado de pixels em qualquer escala que desejarmos, alguns cliques e pronto: rapidamente podemos visitar uma cidade inteira e conhece-la em detalhes através de imagens e informações vistas a partir do céu. 

Porém nada mais abstrato, nada menos realista. Uma imagem de satélite nos permite perceber uma cidade e toda sua região, mas decompõe-se em múltiplos écrans no momento em que descemos a terra.

Para conhecer, de fato, é preciso deslocar-se fora da tela. É preciso viajar, pois só assim se aprende verdadeiramente a conhecer um lugar. É através da visão subjetiva, personalizada e individualizada que fazemos nossa própria compreensão do lugar. É no somatório das dimensões geográficas, simbólicas, emocionais, culturais, políticas, biológicas e religiosas que criamos uma relação de afetividade com o lugar e lhe damos identidade e significado.

Por isso, sempre que viajo procuro observar tudo aquilo que tenha importância no campo simbólico de cada lugar. Observar a arquitetura como arte, e o cotidiano das pessoas me ajuda a compreender melhor o papel do homem como agente responsável pela formação do ambiente construído ao seu entorno, bem como a complexidade das relações sociais e seus conceitos e valores. 

São os manifestos da consciência coletiva. É a deliciosa experiência de estarmos juntos, trocando ideias e conhecimento a cerca de tudo que resume e caracteriza o lugar. 


segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Razão e sensibilidade...




Gosto de gente que é capaz de entender
que é um erro querer arrancar da cabeça
aquilo que não sai do coração.



sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Tetazo - Mulheres argetinas contra as velhas moralizações e novas politizações.

Em janeiro de 2011, diversos casos de violência sexual ocorreram em uma universidade de Toronto, Canadá. Dias depois o policial Michael Sanguinetti, convidado a proferir uma palestra sobre segurança, orientou as alunas “a não se vestirem como vadias para não serem vítimas de assédio sexual”. Ou seja, foi o mesmo que responsabilizar a vítima pela violência sofrida.Pouco tempo depois o IPEA, Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas, divulgou uma pesquisa, na qual, entre diversos resultados assustadores 65% dos brasileiros concordavam com a afirmação de que “mulheres que usam roupas que mostram o corpo merecem ser atacadas”. Obviamente o resultado surpreendeu e gerou revolta, o que resultou na campanha “Eu não mereço ser estuprada”, que ganhou força nas redes sociais.

E essa semana na cidade costeira de Necochea, cerca de 500 quilômetros da cidade de Buenos Aires onde vivo, um incidente gerou muito alvoroço na mídia local e manifestações pelo país. O detonador foi vinte policiais, seis patrulhas e três mulheres em topless, o que imediatamente originou-se em uma guerra entre feministas e conservadores. E na televisão era o mesmo assunto: A questão legal, a opressão de gênero, o machismo e a violência contra a mulher. E não parou por aí. No dia seguinte cerca de duzentas mulheres reuniram-se no obelisco, famoso ponto turístico e lugar de protestos, sob o lema: "la única teta que molesta es la que no se puede comprar". E seguiu nas cidades de Rosário e Mar del Plata, sempre marcado pela irreverência de grande parte das participantes, nuas da cintura para cima, obviamente.

E as discussões seguiam acaloradas. Enquanto os simpatizantes do topless eram a favor do peito de fora, os conservadores buscavam respaldo na lei para justificar a ação policial, já que aqui é proibido o topless - será porque para as leis machistas, como quase tudo na nossa sociedade, o corpo feminino é sexual? É certo que para a lei e para uma maioria esmagadora, inclusive mulheres, o peito feminino ainda é uma ofensa. Mas afinal, por que um peito de fora ainda agride tanto, quando temos mulheres praticamente nuas nas publicidades de tv, novelas, filmes, videoclipes, teatro, fotografias e uma infinidade de outras situações que saturam e se multiplicam todos os dias? Será que ainda podemos nos escandalizar quando existem tantas outras coisas que agridem, violentam e envergonham muito mais?

A verdade é que mostrar-se, com ou sem roupa está na moda. Inclusive virou uma forma de ativismo. Mulheres de toda classe e idade exibem-se nuas em nome de uma multiplicidade de causas nobres. E não se trata apenas de uma excentricidade entre celebridades ou não. O fenômeno é mais abrangente, e por isso merece ser observado com atenção, pois nos últimos anos vem crescendo esse tipo de agrupação política, cuja principal arma é precisamente tirar a roupa em público, sobretudo nas ruas das grandes cidades, já que a nudez ainda continua suscitando alvoroço. O que resulta eficaz quando o objetivo é chamar a atenção. Mas há que tomar cuidado, pois ao se replicarem com tanto barulho e rapidez, é provável que acabem perdendo também sua eficácia midiática em virtude de sua banalização. 

Mas por enquanto a tática ainda parece funcionar, pois a nudez é tão chamativa que atrai todas as atenções, inclusive as que deveriam se concentrar nos nobres motivos do protesto em questão - se bem que as vezes me pergunto se as pessoas enxergam algo mais além de seios, já que os nobres motivos parecem ficar eclipsados pelas instigantes imagens.

Enfim, o certo é que essa luta vai continuar e os seios de fora também. Porque é sobre isso a luta. É sobre mulheres com direito e liberdade de mandar e desmandar em seus próprios corpos e a expô-los sem medo e sem julgamentos. Porque o corpo feminino não é mais sexual que o masculino. Um decote não é provocação. Uma saia curta não é convite.  E um peito de fora não é ofensa.







segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Sobre Escolhas...

                                                         

Assim como eu, você certamente já leu toneladas de frases e artigos que falam da importancia de amar sem apego, respeitando e acolhendo as escolhas do outro. Pois bem, tudo muito lindo, mas verdade seja dita: Nem sempre é assim que funciona. Teoria é uma coisa, já prática outra!

Mas felizmente existem exceções, o que me faz lembrar uma experiência vivida anos atrás, quando trabalhava em uma companhia de comércio exterior e tinha como chefe uma pessoa muito especial, pois sempre que havia oportunidade ele elogiava meus resultados, incentivando e demonstrando sua confiança em mim e meu trabalho. E isso me deixava muito satisfeita e confiante. Mas mesmo assim, um dia decidi participar de uma entrevista para emprego em outra companhia. Na verdade eu não planejava ir a nenhum outro lugar, apenas queria ver o que as outras empresas teriam a me oferecer. E eu disse a ele. E sua reação foi uma completa surpresa para mim, pois ao invés de pensar em si mesmo e tentar convencer-me a ficar, ele apenas me disse sorrrindo: "Vá à entrevista e faça o que é melhor para você!"

Era óbvio que ele não queria que eu saísse, mas entendeu. E isso fez a diferença. Ele ofereceu-me uma escolha. E esse poder de escolha era a liberdade que necessitava para comparar e decidir entre o que era melhor para mim naquele momento. Então eu fui para a entrevista. E quando voltei, trouxe comigo a certeza de que meu trabalho atual era melhor e mais seguro do que um novo projeto. 

O que eu aprendi com essa experiência?  Que deixar ir, dá às pessoas uma escolha, capacita e liberta. Observe o voo de um pássaro. Jamais você irá vê-lo carregando, puxando ou arrastando outro pássaro consigo, pois não seriam capazes de voar.  O certo é que ambos cairiam ou teriam muita dificuldade para continuar.




Pense nisso...





quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

Donal Trump - Um personagem de ideias extremistas!

                                                              


Durante a campanha à presidência dos EUA, o redator de economia do Financial Times, Martin Wolf reproduz muito bem em seu artigo o pavor que a possibilidade da eleição de Donald Trump representava:
 “Às vezes a História dá saltos. Pense na Primeira Guerra Mundial, na revolução bolchevique, na Grande Depressão, na eleição de Adolf Hitler, na Segunda Guerra Mundial, no começo da Guerra Fria, no colapso dos impérios europeus, na reforma e abertura da China por Deng Xiaoping, no colapso da União Soviética, na crise financeira de 2008-2009 e na “grande recessão” subsequente. Podemos estar à beira de um acontecimento tão transformador quantos muitos dos citados: a eleição de Donald Trump como presidente dos Estados Unidos. Isso representaria o fim do Ocidente sob a liderança norte-americana como força central nos assuntos mundiais. O resultado não seria uma nova ordem, mas uma perigosa desordem.” (Financial Times, 27/09/2016)

E a preocupação se justificava. Donald Trump já se mostrava um personagem de ideias extremistas e com discursos e promessas que seus críticos qualificavam como xenófobas e racistas. E hoje, para muitos deles suas nomeações de governo ratificam essas posições.

O certo é que desde sua campanha, Trump ataca cruelmente o povo mexicano, ameaçando deportar as milhares de pessoas indocumentadas. Propõe a construção de um muro em sua fronteira, instiga e incita as pessoas a temerem e odiarem aqueles que são “diferentes”, denigri as mulheres - sua misoginia não consiste tanto em querer restringir a mulher à esfera doméstica, mas principalmente em querer reduzi-la a um objeto sexual - dos concursos de beleza feminina que organizava aos desastrados comentários que emitiu durante a campanha, fica a imagem de uma misoginia atualizada à medida da sociedade de consumo. E essa semana li no site da Globo que diminuiu em 50% o número de mulheres na Casa Branca. Zombou de deficiente, defendeu abertamente crimes de guerra, entre eles tortura, ameaçou a imprensa, proíbe entrada de refugiados sírios e cidadãos de mais sete países muçulmanos, inclusive os que possuem dupla cidadania ou green card.

Ou seja, em poucos dias arrumou inúmeros conflitos. Porém, não há como negar: Trump conseguiu despertar sentimentos e pensamentos radicais que até então, muitos setores não haviam se atrevido a tornar público. E ele aventurou-se e saiu triunfante. O que mostra obviamente que quando não existe confiança nem liderança política, o povo pode usar de experimentos muito perigosos como, inclusive, abrir a caixa de Pandora, criando um futuro incerto para toda uma nação. Basta ver o exemplo da vizinha Venezuela, que se alimenta de ameaças e faz uso da violência para construir o poder.

Mas o fenômeno Trump, por mais excêntrico, fanfarrão, exibicionista, perigoso, direto e populista que seja, não é algo casual. Se explica dentro de um quadro de crises e descontentamento. E uma coisa é certa: a política dos Estados Unidos vai levar algum tempo ganhando a nossa atenção. Só não sei dizer se isso é bom ou ruim, porém, desde já resulta interessante. Ou seria preocupante?