terça-feira, 26 de novembro de 2013

De encontros a desencontros...


                                                            


Ele surgiu do nada. E antes que eu pudesse compreender o que estava por acontecer, me empurrou contra a parede, me roubou um beijo e em disparada se foi, sem ao menos olhar para trás.
E eu fiquei ali. Parada, chorosa e assustada.


Sequer sabia o seu nome. Nunca soube. Desde então menino sem nome passou a fazer parte de minha vida, despertando em mim o que nunca soube explicar.


E hoje, tantos anos depois, nós, os protagonistas daquela cena nos tornamos íntimos, mais uma vez.

O menino sem nome voltou. Talvez para me mostrar que
pessoas chegam, nos surpreendem e depois simplesmente se vão, tão rápido quanto chegaram.


E assim foi. 
Em uma manhã me deu seu último beijo e depois saiu sem avisar, porém já sabendo que não iria mais voltar. Fechou o portão com cuidado e se foi, sem ao menos olhar para trás.

E eu fiquei ali. Parada, chorosa e assustada.

Só assistindo. Como quem quer aproveitar cada segundo, na esperança de guardar na memória o que não deveria perder-se jamais.                                                                                                                                                                     



segunda-feira, 18 de novembro de 2013

A Pietá que vive dentro de todas nós, mães e mulheres!

                         Imagem: Samuel Aranda


Tempos atrás, a imagem acima circulou em vários canais de tv, internet, ou seja, rodou o mundo e foi muito comentada. E agora ressurge na mídia como a foto premiada pelo World Press Photo/2011. Sem dúvida é uma bela foto, pena que tenha saído de um contexto tão ruim.

Alguns anos atrás tive o prazer de conhecer a Pietá de Michelangelo. Como não poderia deixar de ser, fiquei bastante emocionada com tamanha beleza e perfeição. Michelangelo conseguiu expressar de forma delicada e singela a pior tragédia que pode ocorrer a uma mãe: ter nos braços o corpo do filho sem vida. 
Ocorre que, assim que a vi a foto premiada, automaticamente lembrei-me da Pietá de Michelangelo, pois foi inevitável não fazer comparações, já que elas se assemelham em vários aspectos.

Assim como a Virgem Maria que ampara seu filho morto nos braços, a foto mostra uma mulher muçulmana que ampara um homem ferido após violento protesto no Iêmen. 
E não importa quem ele seja. Pode ser seu filho, um familiar ou até mesmo um desconhecido qualquer, porque mesmo assim, ainda será filho de alguém. 

Ambas as imagens resultam de dor e violência. Ambas retratam mulheres absorvidas por um desespero profundo e silencioso. Um pouco de todas nós, mães e mulheres que acolhemos nossos filhos no aconchego e proteção de nossos braços todos os dias. 

A foto premiada me emociona e me inquieta por sua força, pois apesar da invisibilidade de seu rosto, ainda assim consigo sentir sua emoção, compaixão e impotência diante do horror ao abraçar aquele corpo ferido e talvez sem vida. 

Uma desconhecida, uma mulher sem nome, sem identidade, mas que o mundo conheceu através das lentes do fotógrafo Samuel Aranda, transformando-a em mais um importante testemunho de até onde o homem pode chegar.

Talvez você se pergunte o por que desse assunto, já que as noticias em torno dessa imagem já caíram no esquecimento. Mas talvez seja exatamente esse o motivo, ou seja, não dá para esquecer quando homens, mulheres e crianças viram números de estatísticas. Quando séculos se passam e as cenas se repetem. Quando ódio, ganância, intolerância e desrespeito transformam-se no combustível que gera a desgraça, os conflitos intermináveis, as guerras bestiais e as matanças impiedosas.

Infelizmente os que se foram não podem voltar, muito menos ressuscitar, pois isso é coisa para o filho de uma Maria só. Para nós, simples mortais só nos resta seguir em frente, aprendendo a lidar com a dor, sem deixar que ela nos sufoque.

A Pietá do Iêmen mexeu comigo! É triste ver famílias chorando seus mortos, mas pior é testemunhar a dor de uma mãe ao ter seu filho morto nos braços.
                                             


                                                                          

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

Felizes os que não esquecem...



O que mais pode haver por trás das velhas fotografias dos álbuns de família, além daquilo que conseguimos enxergar? O que elas não nos contam e não conseguem nos mostrar? 

Algumas vezes não basta ter somente uma boa percepção. A imagem além de vista tem que ser lida. Fotografia é como texto, ela nos conta uma história. E muitas vezes é preciso ler nas entrelinhas para poder desvendar seus múltiplos significados.

E ela sabe que há muito a ser contado... 

Com a intimidade de quem cresceu e viveu em cada detalhe da velha fotografia, sabe que há muito mais naquele cenário. Vai muito além do acentuado bucolismo e beleza que envolve o vazio que se vê. Então, enfatizando a necessidade de reavivar os anos de sua infância, ela se lança nas águas mansas daquele passado e nos conta como a vida ali decorria normalmente, sem sobressaltos, sem novidades.

Aos domingos as mulheres vestiam suas melhores roupas, iam à missa, faziam promessas e acendiam velas no pequeno oratório. A elas lhe cabia a tarefa de apaziguar desavenças, manter a casa em ordem e a comida na mesa, ordenhar o gado e cuidar dos menores. 


Nas tardes quentes de verão buscavam abrigo e conforto à sombra da grande árvore, lugar destinado não só ao descanso, mas também era ali que se dedicavam aos pequenos trabalhos manuais, como coser peças de vestuário, bordar, descascar favas e espigas, e tudo em meio a muita conversa e boas risadas.

À volta tudo era paz. Os gatos dormiam tranquilos, acomodados entre os pés das mulheres, enquanto que os cães corriam de um lado ao outro, acompanhando as crianças que brincavam de queimada. Era aprazível viver de modo tão simples. E todos se divertiam com o pouco que tinham. 

Mas diversão mesmo acontecia aos domingos. E disso ela lembrava com muito carinho. Após a missa toda vizinhança se reunia e tudo virava motivo de festa. E ela gostava daquele movimento. Gostava da conversa alta, da alegria estampada no rosto das pessoas, dos trajes domingueiro, dos amigos que chegavam para comer, brincar e confraternizar. Sem dúvida era o dia mais esperado, onde tudo e todos ganhavam sua atenção. 

Seus olhos corriam de um lado a outro na tentativa de acompanhar o movimento saltitante e colorido das cabeças das meninas que usavam lindos passa fitas, adornando tranças e rabos de cavalos. E era gente chegando que não acabava mais. O colorido se multiplicava. Os odores das comidas que aos poucos se ajeitavam sobre as mesas, se difudiam pelo ar.

E ela, curiosa como só tratava logo de espiar o arranjo de tantas gostosuras. Sua boca salivava. Mas ela era obediente. Sabia que não podia tocar na comida até que todos estivessem à mesa. E acatava sem questionar as instruções de sua mãe, que eram sempre as mesmas, mas nem por isso deixavam de ser repetidas.

E era uma infinidade de iguarias, todas dignas de deixar qualquer um com água na boca. Muitas preparadas a partir da carne mais tenra e suculenta dos animais que ali viviam, em seus próprios quintais. E tudo acompanhado de pães quentinhos, massa ao sugo e o vinho fresco. 

Naquele tempo crescer cercada por muitas mulheres - avó, mãe, tias, irmãs, primas - se aprendia rapidamente que cozinha e comida eram o centro de tudo. Era um espaço atraente e caloroso, onde de tudo acontecia. Conversas, sussurros, risadas, lágrimas, enfim, um mundo que ainda lhe era tão desconhecido, mas que entre o fumegar de uma panela e um cheiro e outro que dali brotavam, era o que faziam daquela casa um lar. 

Lugar de sua infância querida. Uma terra de abundância. Um lugar de vida simples onde todos cabiam e eram felizes. Uma casa que cheirava a malva, figo seco, café torrado, carne defumada e lenha queimando verde, custando a arder.

E voltar aquele tempo foi especial. Mas sua viagem terminava ali, do mesmo jeito que começou: Com a velha foto em suas mãos e um punhado de sentimentos no coração. 
                                                                      


         



quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Sobre mulheres e lenços...

                              Jennifer Merendino - vítima de câncer


Mês passado viajei a Novo Hamburgo, minha cidade natal e, como de costume me hospedei na casa de minha prima. Ao chegar sou surpreendida por um convite: um evento social que aconteceria algumas horas mais tarde.Como não havia muito tempo, e ela não aceitava minha recusa, resolvo eu mesma dar um jeito em meu cabelo, pois certamente não conseguiria horário disponível em nenhum salão, muito menos próximo a sua casa. Então dei uma boa lavada, fiz uma touca e pronto! Em poucas horas estaria com o cabelo liso e arrumado. 




Mas aí surge um problema: não tinha roupa adequada para a ocasião. Era preciso sair e comprar alguma coisa. E para minha sorte havia um shopping bem próximo a sua casa. Então, coloquei um lenço na cabeça e fui as compras.
Mas mulheres usando lenço - ao menos na cabeça - não circulam muito por aí, já perceberam? Pois é, eu saí e posso afirmar que é preciso uma boa dose de coragem para fazê-lo. Mas não porque eu tenha algum problema com relação ao uso de lenço na cabeça. Nada disso, tanto que saí. Ocorre que, conforme eu circulava pelas lojas, aos poucos ia percebendo que os olhares eram todos para mim, ou melhor, para nós: Eu e o lenço! Era como se eu portasse uma placa, e nela estivesse escrito: Sim, tenho câncer! A maioria das pessoas me olhavam sem disfarces, enquanto que outras disfarçavam encondendo-se atrás de seus óculos escuros. 
Era possível perceber que cochichavam e desviavam os olhares quando encontravam o meu, o que me fez sentir incômoda, com uma vontade súbita de me tornar invisível.

E não parou por aí. Aquele constrangimento foi tomando corpo a medida que os olhares  cresciam e eram do tipo: Não quero fazer parte disso. Ou então: Ah, coitadinha, tão jovem e doente.

Incrível como é só alguém dizer ou parecer ter câncer para provocar uma comoção aterrorizada. Porém, mais incrível ainda é algumas pessoas sequer conseguirem falar o nome dessa doença. O estigma de doença fatal, associada a uma generosa dose de ignorância e somada ao preconceito - mesmo que seja por parte de uma minoria – é o que transforma essa doença nesse horror. As representações associadas ao câncer são na sua maioria negativas, cruéis e destrutivas. 

Quando se pensa na doença, independente do órgão acometido e de seus efeitos, há um conjunto de sentimentos que encontram-se diretamente associados. A mulher acometida pela doença não tem apenas o seu corpo modificado, mas também diferentes aspectos da sua vida social e afetiva.
Mas felizmente o câncer não é só uma vivência difícil, cheia de medos, angústia e até mesmo rejeição. Não, ele também é sinônimo de cura, coragem, determinação, persistência, luta, amor à vida e muito aprendizado.


E a primeira lição que tem a nos ensinar é que de nada adianta fugir ou negar. É preciso aceitar o que a vida oferece, e a partir daí criar as possibilidades necessárias para reformular os aspectos mais importantes para seguir vivendo. 

                                  
Naquele dia, nos corredores e lojas daquele shopping esbarrei em sentimentos que me fizeram vir aqui, e escrever a respeito. Só quem já passou por isso sabe o quanto é difícil. Portanto, se você não passou, então nem perca seu tempo tentando mensurar, pois certamente não conseguirá sequer imaginar a realidade de conviver com isso todos os dias. É doloroso demais.Minha ida a Novo Hamburgo tinha um único objetivo: Fazer meus exames de rotina, pois em 2009 fui diagnosticada com câncer cervical (colo do útero). Depois de tratado hoje estou curada. Faço exames regularmente, de seis em seis meses somente para controle.

O câncer me fez descobrir algo que só os guerreiros possuem: A vontade de vencer, pois não havia espaço para pensar de outra forma. Não havia fé que me permitisse outra opção. Através do câncer também descobri quem estava comigo para encarar o pior e quem poderia me abandonar ao primeiro sinal de perigo.