segunda-feira, 28 de outubro de 2013

E se você morresse amanhã...

                                                           


E se você morresse amanhã, o que encontrariam em suas gavetas? Hoje me deparei com essa frase entre tantas outras e confesso que ela rondou meu pensamento, ganhou espaço e me fez sentir certo incômodo, pois não pretendo me tornar uma senhorinha saudosa, daquelas que ficam debruçadas sobre o passado, lembrando do que poderia ter sido e não foi.

E sempre que ouço alguém falando a respeito de algo que sonha fazer, mas não faz, e não porque não queira, mas sim porque ainda não despertou para o fato de que intenção é um campo de possibilidades realizáveis, mas que depende somente de nós mesmos, percebo claramente o quanto deixamos de viver.

Sendo assim chego a seguinte conclusão: Não vasculhe minhas gavetas! Não perca seu tempo, pois nada irá encontrar. Se me queres, então fique comigo agora. Suas chances são bem maiores hoje, do que me encontrar amanhã, no fundo de uma gaveta qualquer. Aproveite os momentos que a vida nos contempla no agora, pois ele sim, pode nos trazer a chance de aproveitarmos plenamente cada coisa.

Mas se mesmo assim, um dia você quiser perambular por minhas gavetas e remexer em meus guardados, faça, mas o máximo que vai achar serão meus objetos órfãos e já tão inúteis. Apenas testemunhos do meu fim. 

E de nada adiantará ingressar em viagens sentimentais entre memórias e quinquilharias, porque lá não vou estar. 
Recuperar um passado perdido nas brumas de uma lembrança, não irá me trazer de volta. Nem tão pouco meus sonhos, emoções ou tudo aquilo pelo qual meu coração bateu um dia.

Aí você sentirá saudade. E tudo o que você terá, será o silêncio de minha companhia em uma foto qualquer. Meu corpo oco, frio e vazio. Aí minha insônia será sua. E no nascer do dia você ouvirá os primeiros carros passarem, as primeiras janelas se abrirem. E a noite, ao voltar para casa eu não estarei a te esperar. Então, a única companhia será a sua. Aí você entenderá que a vida passa e que só lá na frente nos damos conta de apreciá-la. Quando já se tornou passado e não retorna mais.

Não adianta regar flores mortas. Tão pouco sementes secas, porque dali nada brotará. Por isso me despeço do lixo e inutilidades que guardo nas minhas gavetas para poder viver plenamente o agora, pois ele é minha garantia de que estou viva, pulsante, cheia de intenções e vontades para concretizar.










                                                                                                                                           

sábado, 19 de outubro de 2013

Peneirando meu deserto...

                                                         



Hoje revisitei o deserto. E naquele terreno árido, digno e merecedor do meu respeito mais intenso, onde a areia é senhora de tudo e as dunas reinam douradas, ondulantes, belas e silenciosas, peneirei meu deserto. 

Um cenário lindo, sem dúvidas. Mas há quem não se sinta bem com a imensidão do deserto. Há quem não consiga calar suas vozes, cessar seus ruídos e viver sua paz. Há quem desconheça que seu deserto não é feito só de dunas, vento, pó e areia fina. 

Hoje, em uma tarde quente e ensolarada, quis o destino mais uma vez me levar até as portas do meu deserto. Então prontamente aceitei seu convite e fui. E assim como um garimpeiro, que com um olhar certeiro procura por suas pepitas, reencontrei-me com minhas preciosidades.

Mas o que faz uma pessoa querer peneirar seu deserto? Para mim talvez fosse a possibilidade de reconstruir o meu mundo. Nem melhor, nem pior de outros que já conheci. Apenas o meu mundo, na medida da minha imaginação e dos meus sonhos. 

E hoje, ao viajar por esse deserto não me deparei com um ambiente árido e inóspito. Ao contrário. Encontrei o éden, um lugar onde finalmente pude correr livre para existir e cumprir o que me cabe e com liberdade para ser quem sou.  

Já viajei por esse deserto, não uma, mas inúmeras vezes. Peregrinei por suas areias escaldantes, palmilhei incansável quilômetros de dunas, porém nunca perdi a direção, sempre encontrei o caminho de volta. 

O deserto sempre irá me acompanhar, mas sua solidão, seu silêncio e toda aquela sensação de horizonte inatingível, isso tudo definitivamente ficará para trás. 

Chegar até aqui foi solitário e doloroso. Não fosse a força indestrutível da vida me mostrar o caminho, talvez não tivesse consciência plena da vida e de mim mesma. 

Hoje já não sou só mais um grão de areia em meio ao deserto. Hoje atendo ao chamado. Sou mulher. Sou livre para existir. Sou inteira, divina e selvagem. Sou como as lobas. 


**Este post é dedicado a Cristiane Marino, do Blog Mulheres em Círculo, que entrou em minha vida com "pequenas doses diárias de alegrias" através de suas postagens. E minha alma agradece por tanta generosidade! 






                                                                         

sábado, 5 de outubro de 2013

Muito cedo a vida ficou tarde demais para mim!


                                                                 
          “Muito cedo a vida ficou tarde demais para mim" 
                            Marguerite Duras                                                               


Como chuva forte em dia de tormenta, como aguaceiro que destrói e aniquila, esvai-se assim, a vida da pobre menina.

Com seu mundo de cabeça para baixo, após roubar-lhe a inocência, arrancar-lhe as esperanças e a deixar entregue a própria sorte, então já não tendo mais o que destruir, a chuva se vai, levando consigo o melhor da pobre menina.

E assim começa sua história. E será contada aqui de uma forma não tão agradável nem tão feliz. Mas como lhe coube.
                                 
Era uma vez um lugar sombrio e assustador. Lugar onde criança alguma queria chegar. Lugar onde a infância se fazia noite e a escuridão imperava opressiva e esmagadora.

Nesse lugar sinistro e desafiador habitava um monstro cruel e grotesco. Uma criatura sem paz. Um ser que vagava pelas sombras da maldade patológica, a loucura certificada, a doença justificada - como se violência permitisse explicações ou justificativas. Um ser que vivia entre limites tênues e variáveis.

E ele vivia a espreita. Sempre com seu jeito rude e nervoso, impaciente ele esperava. Olhar atento, músculos tensos, mãos inquietas e voz alterada.

E ela reconhecia cada um daqueles sinais. 
E como ela odiava aquilo tudo. 
Odiava com todas as suas forças a violência que todos aqueles sinais representavam.

O ambiente era sempre tenso. Expunha seus piores dramas. E para ela já não havia mais saída, só destruição. E tudo o que ela mais queria era poder mudar sua história. Mas não tinha voz

Eles eram dois extremos de uma mesma história. Uma ponte frágil e curta que ora aproximava, ora afastava.

Talvez um dia ela entenda os abismos de seu pai. Seus delírios mais profundos e suas andanças a outras dimensões.

O monstro daquela menina não vivia em baixo de sua cama, dentro de um velho armário ou em algum lugar qualquer de sua imaginação. Ele era vivo e real. Habitava entre o mal e a bondade que raramente dava mostras de sua existência. Habitava no abismo imenso que a decepção escavou lenta e dolorosamente. Habitava nos incontáveis conflitos, nos sentimentos contraditórios, 
nas atitudes condenáveis e no limbo da incerteza inquietante.

Mergulhar no passado e evocar a infância vivida ao lado do pai é como espinho na carne. Dói, machuca e incomoda. Durante muito tempo inutilmente ela tentou lutar contra esse passado, e muitas vezes ingenuamente anunciou o seu fim. Mas ele só se deu quando ela finalmente entendeu que quando não compreendemos a dor, ela nos dilacera, mas quando entendemos seus fins, ela nos fortalece.