segunda-feira, 23 de setembro de 2013

O Chamado


                                                                          


Ainda que a contragosto, ela se levanta. Com a intimidade de quem conhece o lugar, caminha pela penumbra e vai em direção a janela, onde pequenos fragmentos de luz atravessam suas frestas denunciando que já se fazia tarde. Pacientemente ela recolhe as cortinas, abre a janela e permite que a penumbra se desfaça, revelando sua silhueta esguia e delicada. Há tanta luz no pequeno quarto que ela pode visualizar até a mais minúscula partícula de pó suspensa no ar.

Aos poucos toda aquela luminosidade vai transformando-se em um calor gostoso e acolhedor. Sentindo o aconchego do momento, ela recusa-se a sair. Volta até sua cama e com movimentos desordenados tenta acomodar-se. 
Isso feito, suaves suspiros escapam-lhe por entre os lábios. São tão leves e compassados que mais parecem um sopro saindo de sua alma. Ela adora o aconchego de seu quarto. Ao menor sinal de perigo, é ali que ela quer estar. É no pequeno aposento que suas angústias são abrandadas. 

Mas ainda que reconfortante e terapêutico, há que levantar. Ela 
toma coragem, avalia o trajeto até o espelho e segue em sua direção. Mira-se por alguns segundos e, na tentativa de arrumar seu cabelo em desalinho, passa os dedos por entre seus longos e sedosos fios e o separa em mechas, fazendo uma espécie de trança. E assim permanece, sem pressa até que esteja terminado.

E talvez permanecesse assim, perdida em seus pensamentos em frente ao espelho, não fosse o ruído insistente de seu estômago alertando que já é hora de descer e preparar o café. Então rapidamente finaliza com seu cabelo, busca alguma coisa confortável para vestir, passa pelo banheiro e finalmente desce as escadas em direção a cozinha.

Porém, antes de chegar é interrompida pelo mundo lá fora, pois 
ao passar em frente a janela não pôde deixar de perceber que algo novo acontecia em seu jardim. Decidida a saber do que se tratava, prontamente serviu-se de uma xícara de café e foi até a porta.

Fazia um silêncio profundo naquela manhã. Tão profundo que era quase possível escutar o mais suave dos movimentos, como o de seus delicados pés, descalços ao deslizar e mover-se pelo velho piso de madeira.


Não havia pressa. Não havia angústias naquela manhã. Somente silêncio.

E assim que chegou a porta, abriu-a. Então uma brisa leve e fresca tocou-lhe a face. Era suave e muito delicada. Talvez ainda um pouco gélida, porém trazia consigo um adorável aroma de lavanda que ela imediatamente identificou, ao senti-lo entrando por suas narinas e percorrendo seu corpo até que finalmente invadisse seus pulmões, deixando-a inebriada de tanto prazer. O sol, por sua vez, timidamente tocava-lhe a pele como ondas suaves e macias, banhando seu corpo com luz e calor. 

Tudo parecia surpreendentemente mágico e especial. Por isso ela continuou a observar. E o que viu foi revelador.

Ela vive na casa a muito tempo, porém somente naquele dia deu-se conta que ali, em seu próprio quintal existia um lindo jardim. Então intrigada perguntou-se: Ele sempre esteve aqui? Se esteve, por que só hoje eu consigo vê-lo? Será que é porque o dia está bonito, o céu está límpido e o sol brilha com toda sua força? Pode ser - pensou- mas muitos dias assim já aconteceram antes, e eu nada vi.

Depois de hibernar durante o intenso inverno, finalmente a natureza começava a renascer. O jardim parecia incrivelmente vibrante e intenso. Pássaros cantavam com extraordinária beleza e o vento gentilmente encarregava-se de levar até seus ouvidos, belas e doces melodias. 

Beija-flores eram atraídos pelas mais diversas cores e néctar das inúmeras flores que desabrochavam nos canteiros. Sabiás laranjeiras cantavam magistralmente anunciando que era chegado o tempo de acasalamento. Bem-te-vis, tico-ticos, pardais, enfim, pássaros de todas as espécies cantavam e regozijavam alegres e saltitantes por entre árvores e arbustos.

Tomada por um desejo intenso de assimilar tudo o que acontecia e desfrutar de toda aquela deliciosa experiência sensorial, ela prontamente decidiu abandonar sua rotina diária e render-se aos prazeres daquela manhã tão mágica e especial. Olhou para os lados, procurou pela cadeira mais próxima e foi em direção ao jardim. Sentou-se em meio ao canteiro de lavandas e relaxou. E pela primeira vez, depois de muito tempo ela sentia-se parte de alguma coisa. Sentia-se viva, inteira e presente.

Com o sol cada vez mais quente, pequenas gotículas de suor começavam a brotar de sua pele branquinha e macia. Mas ela não se incomodou, nem percebeu. Estava tão embriagada por toda aquela atmosfera de encantamento e a deliciosa fragrância suave que pairava no ar, que nem se deu conta.

Não sei precisar o tempo que ela ficou ali, silenciosamente, apenas observando a vida a sua volta. Mas sei que foi tempo suficiente para fazê-la perceber que outras portas deveriam se abrir para que a vida, enfim, pudesse fluir. Talvez ela não tivesse clareza do que queria, mas naquele momento tinha certeza de que não queria mais viver ao meio, partida, dividida e incompleta. Ela não era assim, mas sentia-se assim.

E toda aquela atmosfera poética soava como um chamado. Como se  a vida em forma de um sopro em seu ouvido lhe gritasse e implorasse: Desfaça todos os nós, eles apertam e sufocam. Deixe o ar entrar, e então, apenas respire. Depois despeça-se de tudo aquilo que precisa deixar partir para só então celebrar e aceitar tudo aquilo que precisa vir. Pare de fugir, esconder-se de tudo e todos. Liberte-se dessa vigília constante e irritante. Liberte-se dessa vidinha rígida, chata e triste. Vidinha essa que só tende a se estreitar e te apagar.

Definitivamente essa não era a vida que ela queria. Não que ela pensasse em sair por aí, oferecendo sua cara a tapa, nada disso. Ela só queria entender porque muitas vezes escolheu se fechar quando poderia ter sido mais feliz. Mas ela não tinha as respostas, e talvez nunca as tivesse.

E no silêncio ela permaneceu, mergulhada em seus pensamentos e refletindo sobre a única certeza que tinha: Não queria mais perder tempo buscando explicações lógicas e racionais para tudo. Não queria mais sentir-se melancólica e com a triste sensação de que sua própria vida não lhe pertencia.Era preciso libertar-se de seus temores, vencer suas resistências, reavaliar suas crenças e sair da mesmice em que se encontrava. 

E assim como o jardim, ela precisava florescer para novamente recolocar sua vida em movimento. Precisava dar os primeiros passos para libertar-se das ideias pré-concebidas, das tradições mal explicadas, dos costumes sem sentido e de tudo mais que arrastamos inutilmente ao longo da vida.

E foi então que ela levantou-se, apoiou sua xícara sobre a cadeira, e um pequeno sorriso surgiu em seus lábios. Não era só um dia bom, mas sim um dia espetacular e revelador - pensou.

Naquela manhã, ao abrir a porta que a levou até o jardim, algo mágico aconteceu para mostrar-lhe o caminho a ser seguido. Foi como um lembrete que de uma forma muito sutil chegou para mostrar o quanto ela havia se desviado de sua essência. E se ela não conseguia ver o jardim, era porque estava presa aos seus medos e ao seu cotidiano. 

O jardim sempre esteve lá esperando pacientemente por ela, assim como todo o resto. Mas as vezes não conseguimos ver. Por isso, felizes são aqueles que reconhecem os valores revelados através da fragilidade  humana. Os que reconhecem que a vida pode seguir muito bem sem precisar da dureza da razão. Os que reconhecem e são capazes de evoluir através dos duros golpes que a vida nos dá, assim como são perfeitamente capazes de reconhecer e aceitar quando ela gentilmente quer nos ensinar.




                                                                                                                 





segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Beleza Plástica

                                                         
Ontem assisti ao filme "Segredos de Sangue" com Nicole Kidman e achei estranha a expressão plastificada, sem emoção e sem espontaneidade com que ela atuou do inicio ao fim.

Gente, o que ela fez?
Ela continua linda, sem dúvida, mas eu ainda prefiro um sorriso expressivo, daqueles que acentuam as ruguinhas e evidenciam os pés de galinha a uma cara lisa, descaracterizada de seus traços, e que não me passa emoção.

Hoje, com a facilidade da manipulação da imagem, seja por meio do puxa, estica, preenche, define, aspira, corrigi, qualquer um pode vir a parecer com quem bem entender, como se apenas parecer mais bonito fizesse alguma diferença de quem realmente se é.

Envelhecer é uma coisa natural, sem contar que minha história está toda ali, registrada em cada marca, cada ruga, cada sinal de meu rosto. Mas para algumas pessoas envelhecer é tão assustador que simplesmente não aceitam o que a existência lhes dá. Negam e repudiam toda e qualquer marca deixada pelo tempo. Como se existir de forma natural fosse impossível, uma espécie de castigo que os impede de serem verdadeiramente felizes, ou pior, como se precisassem correr ao encontro do espelho toda vez que quisessem saber quem realmente são.

Não estou aqui querendo fazer apologia a velhice, nada disso! Penso que todos nós em algum momento procuremos algum referencial de beleza. Quem não quer ser ou sentir-se bonito? Isso é normal e saudável. O problema reside no fato da pessoa apenas querer sentir-se bonita e nada mais.

A preservação do corpo deve estar presente em qualquer idade, mas para isso não precisamos criar expectativas exageradas nem tão pouco cometer loucuras em nome da beleza. Achar um defeitinho aqui, outro ali, isso é normal. Eu mesma já passei por procedimento estético cirúrgico depois do nascimento de minhas filhas. Não me sentia confortável, julguei necessário e o fiz. E fiquei muito satisfeita, pois acredito que o bom resultado está na harmonia, e não na perfeição, muito menos nas interferências radicais, profundas e irreversíveis.

Cada pessoa sabe o que lhe incomoda, então se puder, faça. Só não faça da cirurgia plástica uma banalização, ou seja, para enquadrar-se a um padrão chato e nada original somente na tentativa de satisfazer o outro, ser aceito, ser parte de um grupo ou sentir-se admirado. Ou então, no pior dos casos submeter-se a uma cirurgia estética para sanar um mal-estar que, mesmo que referido ao corpo, nada tenha a ver com ele. O que para mim soa como um pedido de socorro, uma tentativa frustrada de aplacar angústias e inquietações de um corpo que se legitima, não pelo seu conteúdo. 

A verdade é que podemos puxar, esticar, maquiar, enfeitar, camuflar, porém mesmo assim um dia a máscara cai revelando tudo aquilo que se esconde atrás da estética de fachada, pois beleza não está somente naquilo que se vê, mas principalmente naquilo que se sente. E de gente bonita e sem conteúdo o mundo está cheio.

Infelizmente vivemos em uma sociedade que determina padrões, que dita regras e impõe comportamentos, mesmo que muitos deles nos façam mal. Vivemos a era das ilusões, da confusão de identidades e do belo em tempo integral, acreditando equivocadamente em algo que só a juventude pode nos dar. Sendo assim, acreditamos e alimentamos a indústria da felicidade. Viramos seus consumidores vorazes esquecendo que a felicidade verdadeiramente dita sempre foi muito mais do que essa ideia de plástico. Que ela é um estado de harmonia e equilíbrio – muitas vezes esquecida e mal usada - e não de alienação em relação a si ou ao outro.

Mas diante tantos discursos prontos, tantas falsas necessidades, tantas verdades preestabelecidas é muito fácil nos deixar levar pela magia da felicidade plastificada. Ela enche os olhos e alimenta o ego. Todos os dias a mídia nos oferece inúmeras cenas com gente bonita, bem sucedida, feliz, rica, poderosa, enfim, um retrato perfeito onde é vendida erroneamente a ideia de que tudo isso é acessível a todos, quando na verdade não é.


A triste conclusão que chego de tudo isso? Importante hoje não é a salvação de nossas almas para o fatídico dia do julgamento final, mas sim a de nossos corpos, já que a rejeição social dói mais que as chamas do fogo do inferno.






                                                                                      

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Nem você sem mim, nem eu sem você...

                                                                 

Nem você sem mim, nem eu sem você / Ni vous sans moi, ni moi sans vous
O "Lai da Madessilva" Marie de France, Século XII




Chega uma época na vida onde tudo o que temos, é o tempo já vivido. E felizes são aqueles que reconhecem nesse tempo a intimidade dos anos de delicadeza, amor e ternura.

Sem efeitos especiais, photoshop ou qualquer bela paisagem como pano de fundo, a foto me encanta e fala por si só: Um casal de idosos que aborda e revela delicadamente o fluxo do tempo. 

A imagem me fala dos encontros, movimentos e de todas as experiências por eles compartilhadas. E eu me rendo completamente a essa linguagem, pois não é preciso ser som para ser ouvido, basta que eu mantenha meu coração aberto e em silêncio para que o milagre aconteça.

E nessa linguagem única e sensível ouço as vozes de seus passados. Elas sussurram. Discorrem entre a força do amor cotidiano e as memórias de duas pessoas que decidem envelhecer juntas, com a sabedoria e a generosidade de quem zela pelo amor que cativa no outro.

E diante tamanho cuidado o tempo se rende. Não permite que se percam, ao contrário, conspira para que se encontrem no olhar que inexplicavelmente ainda atrai, no carinho dos afagos singelos, no conforto do abraço carinhoso, nos adoráveis gestos gratuitos e genuínos, na amenidade gostosa e corriqueira, na cumplicidade silenciosa, na intimidade de quem reconhece no outro seus pequenos tesouros.

Poderia então o tempo ser tão injusto e impiedoso? Abordo a fotografia. Procuro por vestígios, algo que me mostre o outro lado daquela imagem. Aquele que não mostramos e que geralmente transita entre crises e questionamentos, quase sempre gerados pelo fatídico tempo. Mas novamente só o que vejo são pessoas que me parecem felizes e completas.

Mas minha mente não se esgota. Sinto vontade de vasculhar suas gavetas, abrir seus armários, remexer suas caixas e revirar seus guardados em busca de algo. 

Mas isso não se faz necessário. Não é preciso buscar por nenhum testemunho quando a imagem se basta. Ela por si só me mostra, que mesmo diante do desgaste de rostos e corpos envelhecidos pelo tempo, percebe-se que para eles esse tempo não destrói ou corrói. Ele apenas muda. 

E agora já não se faz mais necessária a cobrança por romantismo, paixão, atenção ou sexo, pois aquela súbita e descontrolada torrente de emoções, agora dá lugar a momentos mais ternos e tranquilos. Já não existe mais a necessidade de enfatizar tudo, o tempo todo.

E é nesse cenário, permeado pelo tempo, rodeado de lembranças de um amor que sobrevive às intempéries da vida que me dou conta de que o tempo não é vilão, injusto ou impiedoso. Ele é a força que sustenta, transforma, recupera e reconstrói.

Por isso, sejam eles fortes como uma ventania, ou doces como uma brisa gostosa, a imagem me faz pensar que envelhecer ou morrer nem sempre representa o fim de um grande amor, mas a distância que permitimos que se estabeleça, sim. Isso m
ata lento, gradual e dolorosamente. 



                                                                           



domingo, 1 de setembro de 2013

Quando a palavra acolhe...


                                                                   
Gosto de escrever, sempre gostei. Acho que meu prazer pela escrita começou no momento em que aprendi a conhecer as letras, no momento em que descobri que juntas formam uma ideia. E então, desde cedo passei a usar a escrita como refúgio. Um lugar habitável e seguro onde pudesse depositar minhas lembranças, celebrar a vida e desafiar a dor, pois é na escrita que me apego as memórias, organizo meu pequenino mundo e dou sentido a imensidão de pensamentos que habitam em mim.

Penso que escrever não seja só o ato de registrar a palavra. Vai muito além, pois pode ser quase desafiador, já que ao escrever precisamos ultrapassar o vazio da página em branco, dar vida e liberdade necessária para as palavras fluírem livremente e encontrarem seu verdadeiro significado e forma. 

E é aí, na complexidade desse encontro que consigo me desvencilhar do imenso emaranhado de fios tortos, partidos e desgastados que é feita minha vida. É através dessa junção de letras e palavras que me liberto e encontro força, cumplicidade, intimidade e o acolhimento necessários para dar nome aos meus sentimentos, emoções e fantasmas.

É no silêncio da escrita que dou vida aos meus guardados, acalmo as vontades inesperadas, silencio as vozes que latejam nas entrelinhas, alivio as tensões do dia a dia e me desfaço de tudo que me oprime, sufoca e degrada. 

É nesse momento de total intimidade que encontro o caminho para transitar entre a ingenuidade que já se foi, e a realidade que se faz presente em toda sua essência, tal qual ela é e pode ser. Uma realidade as vezes dura, fria e ardilosa. 
Mas, se por um lado a palavra me conecta tão profundamente com todos os fragmentos melancólicos e duros da minha vida, por outro, com uma dose generosa de lirismo e poesia me acolhe, e sem exageros me reconcilia com o sorriso, me devolvendo o encantamento de evocar pessoas, rever lugares, contar histórias e expressar meu amor na intenção de compreender e ser compreendida. 

Escrevendo posso atingir o que era inatingível, ver o que estava oculto e a crer no que era só fantasia.
E mesmo que eu quisesse não conseguiria manter-me distante da escrita. Ela tornou-se grande para mim. Tão grande ao ponto de trazer para perto o que era distante. Trouxe luz onde havia escuridão. Trouxe ordem onde só havia caos.

A cada página que inicio, uma interrogação evidencia o medo do desconhecido. Porém a cada página que finalizo, mais me aproximo do caminho que leva ao desfecho, caminho esse que só reconhece aquele que já se perdeu por tantos outros.

Enfim, escrevo porque gosto. Escrevo movida pelo que sou e pelo que me tornei ao longo dessa caminhada. Escrevo pelos sentimentos perdidos, pelos sentimentos ganhos e pelos sentimentos que espero um dia reencontrar. Escrevo porque acredito que as palavras podem tocar e transformar.