terça-feira, 27 de agosto de 2013

Um olhar sobre a verdade



                               
É fácil proferir opinião sobre alguém ou alguma coisa. Contudo, nem sempre quem o faz possui o preparo necessário para fazê-lo, pois uma vez ditas as palavras são assimiladas de forma única por quem as recebe, sendo assim muitas vezes podem causar mágoa, dor e sofrimento.

Seguidamente somos confrontados por pessoas que se julgam possuidoras da verdade, e em nome dessa verdade nos condenam a fogueira. E tal e qual Joana D'Arc ardemos na chama violenta e silenciosa da arrogância, crueldade e imposição. Não uma, mas inúmeras vezes.


É certo que todos já fomos ou seremos acometidos pelo espírito da intolerância ao assumirmos a postura justiceira de donos da verdade, seja ela qual for. E quando isso acontecer é bem provável que tratemos logo de eliminar ou converter todos aqueles que não se afinem com nossas ideias ou convicções. Tentaremos defender tudo aquilo que julguemos verdadeiro, esquecendo óbviamente que esse conceito é fruto exclusivamente nosso, ou seja, é nosso ponto de vista, e não do outro.


Por outro lado não há problema algum em nos apoiarmos em certezas, nem tão pouco que tenhamos opinião formada sobre determinados assuntos, pois isso é inevitável, necessário e saudável. O problema ocorre quando não há a compreensão necessária para saber acolher a adversidade que há no outro. Quando não conseguimos perceber o valor da diferença e não respeitamos a opinião alheia.


Penso que assim como o conhecimento a verdade é um processo infinito de acumulação do saber. E não acredito em verdade absoluta, muito menos em quem se diz possuidor dela. Assim como não acredito, temo e desconfio de toda pessoa que diz ter razão, não aceita opiniões e não se abre para discussões. Esse tipo geralmente
 é intransigente, crítico e sem limites. São pessoas que valorizam demasiadamente suas crenças e convicções. As vezes um perigo, pois quase sempre opiniões extremadas estão alicerçadas em crenças frágeis e sem nenhum fundamento. E os exemplos estão aí, basta uma rápida olhada nos noticiários para constatar até onde o homem pode chegar em nome de suas convicções e verdades.

Isso só prova que nossa ignorância diante a complexidade da verdade é imensa. Por isso, ao adotarmos uma opinião ou comportamento diante qualquer verdade, deveríamos fazê-lo com humildade, respeito e bom senso.

Acredito na verdade construída através de nossas escolhas, aquelas que fazemos cotidianamente ao longo de nossas vidas, assim como acredito em verdades sem garantias, afinal, um pouco de dúvida não faz mal a ninguém.





                                                                                                                     

terça-feira, 20 de agosto de 2013

Para Beatriz...


                                                      

Hoje acompanhei minha filha até o Laboratório Delboni Auriemo no bairro da Mooca, em São Paulo. Lá chegando, conheci Beatriz. Foi um encontro ao acaso, daqueles que nos pegam desprevenidos e nos mostram o quanto valorizamos bobagens, complicamos a vida e nos pegamos em coisinhas pequenas deixando tão pouco espaço para compreender o que realmente seja dificuldade, já que estamos sempre acreditando que os nossos problemas são mais importantes e urgentes que o do outro, quando na maioria das vezes não é bem assim.

Meu encontro com Beatriz não durou mais de uma hora, porém foi tempo suficiente para ser confrontada por emoções complexas e uma sensação aflitiva. Sentia-me como se estivesse pendurada no parapeito de uma janela no trigésimo andar e, na eminência de cair a qualquer momento.

Beatriz é uma menina de no máximo uns cinco anos. Linda como muitas meninas que vemos diariamente porém, com a realidade dura e concreta de uma menina que não move um músculo do pescoço para baixo, necessitando inclusive da ajuda permanente de um cilindro de oxigênio para poder respirar.

Observo Beatriz e percebo que sua incapacidade de mover-se e falar fazem com que seus pequeninos olhos sejam sua porta de comunicação. É através deles que se expressa em uma linguagem que seguramente somente seus pais conheçam e reconheçam o sentido de cada mirada.

E eles ali estavam. Sentada ao seu lado a mãe, uma bela e jovem mulher que mantinha os olhos fechados enquanto carinhosamente acariciava a mãozinha de Beatriz. O pai, um pouco mais além e, certamente tentando distraí-la, apontava a imagem de um castelo em uma das paredes e dizia sorridente: "Olha filha, veja lá em cima na torre! Você vê a princesa? Daqui a pouco ela vai sair!" 

A mãe permanecia de olhos fechados, enquanto que os meus marejados. 
Presenciar a dor alheia é difícil e pode ser até doloroso. Mas difícil mesmo é entender onde mora o pesadelo. E o pesadelo daquela família não reside na deficiência, mas sim em suas consequências, ou seja, na sensação de impotência que seguramente deve consumi-los dia a dia, roubando-lhes o sonho de ver a filha crescer saudável, sendo capaz de projetar um futuro promissor e uma vida longa pela frente. Aquilo tudo que tanto queremos para nossos filhos. 

Mas para Beatriz não existe esperança de uma vida longa, e isso machuca. Mas por outro lado me conforta pensar que Beatriz sequer entenda o significado disso tudo. E quando penso na complexidade do comprometimento de suas funções corporais, no alto grau de sua dependência para o desempenho das coisas mais básicas em suas atividades cotidianas, então me pergunto: Como eles conseguem? Não deve ser fácil compartilhar de todas as dores e dificuldades do lado mais frágil da condição humana, principalmente tratando-se de sua filha. 

A deficiência da pequena Beatriz me fez pensar na grandiosidade do amor, generosidade e respeito de seus pais por aquele serzinho tão frágil que apesar de todas as suas limitações, luta para viver. 


Eu jamais vou esquecer daquele dia, pois Beatriz e seus pais me mostraram que quando um corpo já não responde a qualquer estímulo que seja, o coração sim! Ele pode ser tocado e sentido. 


E isso não me resta dúvidas de que já alcançaram. Inclusive o meu!



                                                                           

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Mais amor, por favor!

                             

Todos os anos passo uma temporada em São Paulo e ocorre sempre a mesma coisa: Quando penso que já não há mais espaço para perplexidade e surpresas, novamente me deparo com as inúmeras e intermináveis mazelas da existência coletiva. 

Hoje, em um rápido passeio pela cidade a frase “Mais amor, por favor” ganhou minha atenção. Uma frase simples e pequena, porém com uma conotação imensa, do tamanho da cidade de São Paulo. 

Seria um apelo? Um lembrete? Um pedido de socorro? 
Ao andar pela cidade consigo entender que a solidão e o vazio das pessoas também é motivo para gerar esse amor como falta, pois o que vejo pelas ruas são vidas fragmentadas, pano de fundo para o descaso e abandono moral e social. Pessoas que perderam sonhos, crenças, famílias, vidas e dignidade.

São verdadeiras hordas de zumbis cambaleando pelas ruas que, como ratos se escondem em um buraco qualquer que possam chamar de seu. E assim vivem, dia após dia escarafunchando entre o lixo e dormindo em colchões imundos, fétidos e úmidos. Em determinados lugares, inclusive é possivel ver pessoas praticando sexo ou consumindo drogas, e está tudo ali, para quem quiser ver.

Andar pelas ruas de São Paulo - principalmente pela regi
ão central - e me deparar com essa dura e cruel realidade, inevitavelmente me pergunto: Onde está a beleza dessa cidade? Porque eu não a vejo. O que vejo é uma cidade que maltrata, seja pelo seu trânsito caótico, o seu crescimento descontrolado, desordenado e imperfeito, o transporte indigno e desumano, as ruas sujas e mal cuidadas, as fachadas pichadas e destruídas de prédios que deveriam ser cuidados pois fazem parte da historia dessa cidade, o vandalismo, a poluição, a violência, oestresse, a impaciência, a falta de amor e respeito ao próximo e por aí vai.

A verdade é que eu procuro mas não encontro. E só o que vejo são pessoas correndo, apressadas, agitadas e melancólicas. Pessoas vivendo sua fragilidade ao extremo e procurando no amor uma resposta. Pessoas desprotegidas e abandonadas por seu governo e sua sociedade. Pessoas tão marginalizadas que ingenuamente buscam no amor meios para a construção de sua sobrevivência, agarrando-se a esse sentimento como esperança de que não sejam só mais um esquecido no meio da multidão. 

Mas seria realmente possível esquecê-los ou não vê-los quando são vítimas de um fenômeno social cada vez mais forte, e estão por todos os lados da cidade? 


Vivemos hoje a tão falada e discutida modernidade líquida, como Bauman já definiu muito bem. Uma vida egoísta e individual. Um mundo onde o amor próprio representa a forma mais individualista de dar valor somente a si próprio, sem entender que a vida em sociedade vai muito além da realização de nossos próprios interesses.

A vida moderna em São Paulo, assim como em outras grandes cidades é marcada pela banalidade das relações humanas, o que gera fragilidade, que gera violência, insegurança, abusos, transgressões, abandono, desrespeito, desamor, enfim, gera o caos e a desordem, seja na cidade ou no seu cidadão.

São Paulo, a maior cidade do hemisfério sul, a metrópole tão evoluída economicamente me mostra que na rotina do seu cotidiano a vida real de uma grande cidade nem sempre pode ser descrita como um belo cartão postal. Que a vida real muitas vezes passa longe do glamour, do charme, do luxo e poder. E que a vida em uma grande cidade pode ser muito triste e dolorosa, pois quando nos sentimos abandonados nada pode ser mais solitário do que estar no meio da multidão e sentir-se invisível.

E quanto a beleza de São Paulo, sigo procurando!