terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Natal, um tempo de contrastes!

                                                               
Natal é um tempo agitado. Enquanto alguns rodam freneticamente em busca de presentes, gerando muitas vezes uma sensação de desconforto diante tantos gastos desnecessários, outros enfrentam uma verdadeira maratona em busca de adornos, luzes, árvores e tudo que possa acrescentar mais brilho e simbolismo a noite de Natal. 

Compreendo que fique difícil resistir aos apelos dessa veia comercial, ainda mais quando nos parece inesgotável. Isso sem falar na correria aos supermercados em busca das melhores iguarias e toda aquela ansiedade 
em torno da ceia. Mas enfim, todo esse estresse se justifica a mesa, com a apresentação de pratos impecáveis e saborosos, dignos de muitos elogios e excessos – geralmente de calorias.

Mas também há o Natal da introspecção, quando milhares de pessoas são tomadas por uma onda de questionamentos - e inclui-se aí até os mais objetivos e centrados, pois paira no ar um sentimento quase generalizado de inadequação, falta de laços e compromissos afetivos, carência de acolhida, muitas dúvidas e uma avalanche de outros sentimentos que vão gerando um desconforto e uma tremenda pressão interna.

Tudo isso talvez se dê, porque o Natal nos remete a um tempo de saudade e nostalgia. Bate aquela sensação de vazio, quase sempre originada por lembranças e passagens que nos fazem reviver momentos felizes de nossa infância, ou outro momento feliz do passado. E assim, essa sensação povoa nosso consciente e influencia nosso estado de espírito de novembro a dezembro, sendo que, para uns mais e outros menos. Porém, há uma saudade capaz de nublar até o mais ensolarado dos corações. Uma saudade doída, daquelas que dá um nó na garganta e secura na boca, mas que serve essencialmente para nos mostrar que distância e adeus, podem ser o grande pretexto para que façamos a diferença na vida de quem está por perto.

Mas por favor, não façamos do Natal um tempo de banalização das palavras. Amor, paz, solidariedade e fraternidade são jogadas ao vento. Ditas e repetidas à exaustão quando sequer são lembradas ou cultivadas no decorrer dos meses que antecedem a data. Palavras usadas por mera obrigação ou simples conveniência que quando chegam ao seu destino já estão totalmente desprovidas de sua verdadeira função, ou seja, estreitar e fortalecer laços. E pior, criando a falsa expectativa de que estaríamos mais generosos, sensíveis e afetivos. Pura balela!

Bom mesmo seria se o Natal fosse além de sua dimensão propriamente religiosa e comercial. Mas melhor ainda seria as pessoas expressassem umas as outras o seu bem querer, verdadeiramente, demonstrando que há sim uma dimensão divina em cada um de nós, e que não há necessidade de uma data em especial para celebrarmos o amor e todos os outros sentimentos que o Natal se propõe.
Mas enfim, o tempo vai passando e muita coisa vai mudando. 

E talvez eu não tenha mais os Natais de minha infância, quando ganhar um único presente era algo especial, mesmo que não fosse necessariamente um brinquedo. Quando a data não se caracterizava basicamente pelo excesso do consumismo. Quando valores como amor, amizade e família não eram substituídas por objetos e quinquilharias.
Mas eu acredito que ainda é possível resgatarmos todos aqueles prazeres. Basta nos concentrarmos naquilo que efetivamente nos fazia felizes para descobrirmos o óbvio: O encantamento de estar em família e o prazer de sentir-se amado e especial. Isso são coisas que presente nenhum é capaz de nos dar.  

Dalai Lama, que não celebra o Natal, mas como sábio e sensível que é, disse algo que para mim é a mais pura expressão do verdadeiro espírito de Natal:
“Só existem dois dias em que nada pode ser feito. Um se chama ontem e o outro amanhã. Portanto hoje é o dia certo para amar, acreditar, fazer e principalmente viver!”  




                                                                              

sábado, 14 de dezembro de 2013

Alguém para lembrar...


                                                               
                                       
As férias estão chegando e com elas os tão sonhados momentos de lazer e descanso. E muita gente já está em contagem regressiva para fazer as malas e partir. Que bom! 

Mas o que não é nada bom é o abandono. Resulta que férias e abandono de animais andam juntos. E por mais cruel que pareça, infelizmente tem sido uma prática muito comum. Muito mais do que se crê. Ou você pensa que uma sociedade que é capaz de abandonar seus incapazes, idosos, doentes e bebês não seria capaz de abandonar um pet?

Tempos atrás muito se falou à respeito da enfermeira que espancou até a morte sua cachorrinha, a que jogou seus dois cães pela janela do apartamento e a outra que enterrou seu cão vivo. E ndignados nos perguntávamos o que leva uma pessoa a cometer uma barbárie dessas com seu animalzinho de estimação. Loucura, surto, crise? Não importa o nome que se dê, nada justifica tamanha crueldade.  
E abandono é tão violento quanto, ou mais. 

Todos os dias me deparo com cães e gatos abandonados a própria sorte pelas ruas. E isso além de triste é muito cruel, pois os animais abandonados estão sujeitos a uma morte lenta e dolorosa - geralmente morrem por atropelamento, doenças graves, fome e maus tratos.

Ao comprar ou adotar um animal de estimação, lembre-se que cães e gatos crescem e deixam de ser aquele filhote lindo e fofinho. Alguns chegam a viver de 10 a 20 anos, ou seja, durante sua existência vai precisar de alimentação, abrigo, cuidados, carinho, amor, companhia, paciência e boa vontade de alguém para ensiná-lo. Ou seja, é um ser vivo e sensível. Não um produto que você compra ou ganha e depois de um tempo simplesmente joga fora porque não serve mais aos seus propósitos. Ele é e será parte da sua vida, um membro de sua família. Portanto, se você não consegue assumir essa responsabilidade, então fuja dessas coisinhas lindas e encantadoras porque, ao contrário de nós, seres dotados de inteligência e capazes de batalhar por nossa casa e comida, eles não. Os animais dependem única e exclusivamente de nós, da nossa boa vontade, carinho e amor.  

E vale lembrar: A lei da ação e reação não é exclusiva da física, ela está também nas relações humanas. Se agirmos com o bem receberemos o bem. 
Então que tenhamos férias felizes, levando em nossa bagagem não só boas expectativas e planos de viagem, mas também um pouco mais de dignidade e respeito por esses seres tão especiais e que nos dão tantas alegrias. 
Impossível abandonar um amigo tão importante. E não precisa ser assim. Sempre existe uma alternativa.

Importante: Abandono é crime!



                                                                                                           


Vídeo de uma campanha publicitária da rede de Farmácias Panvel. É lindo, vale conferir!









segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Por dias melhores...


                                               

O final de ano está chegando e com ele muitas promessas e desejos para o novo ano. Geralmente são coisas do tipo: Quero emagrecer, parar de fumar, ser mais compreensivo, organizar as finanças, trocar o carro, aproveitar mais a vida, e assim por diante. Ok, só que não dá para passar pela vida olhando somente para o próprio umbigo, tecendo nossos desejos mais urgentes e permanecendo indiferente ao que acontece no mundo.

o dá mais para nos instalarmos de maneira segura e confortável dentro de nossos lares e, resignados ignorarmos a complexidade da existência que nos cerca, preferindo o silêncio ao invés de um diálogo mais consciente sobre a realidade em que vivemos.

Porque nunca o homem exerceu seu caráter destruidor com tamanha maestria. Guerras e conflitos são alimentados pela intolerância, ódio, ganância e desrespeito. A violência se alastra como praga. Basta ligarmos a tv e assistirmos aos telejornais para vermos seres humanos transformados em seres primitivos e bestiais.
Nunca se produziu tanto, mas ainda assim milhões de pessoas passam fome todos dias.
Nunca a medicina, ciência e tecnologia avançaram tanto na busca por medicamentos e tratamentos de impacto no intuito de sanar os mais variados flagelos da humanidade, no entanto, todos os dias milhares de pessoas ainda morrem de epidemias e doenças corriqueiras.
Nunca tivemos tanto acesso a informação e ainda assim existe tanta gente desinformada. É tudo tão rápido que muitas vezes sequer conseguimos processar as informações recebidas, pois na maioria das vezes nos chegam como flashes, impossibilitando um pensamento mais reflexivo, crítico e seletivo. Há tanta tecnologia e conexão de forma exagerada que tudo isso acaba gerando ansiedade. Viramos escravos da informação.
Nunca viajamos tanto. Em um simples clique podemos conhecer o mundo, no entanto, muitas vezes sequer sabemos o que se passa ao nosso lado.
Nunca se ouviu falar tanto em tragédias naturais. São tsunamis, tornados, furacões, terremotos, enchentes, secas, derretimento de geleiras, ou seja, é o preço cobrado pelo nosso descaso e desrespeito com o planeta. Isso sem falar no excesso de consumo, desperdício e mau uso dos recursos naturais. 
Nunca caminhamos a passos tão largos, rumo ao caos. E se nada for feito, em curto prazo muita coisa vai mudar, e para pior.

O homem precisa se libertar do seu orgulho, arrogância, vaidade e prepotência. Precisa ter mais consciência da vida que está levando para, então, saber que vida estará deixando para os que vierem depois de nós, pois seu comportamento aqui e agora é que vai determinar o seu futuro e dos demais.

Portanto, se você pretende fazer alguma promessa para 2014, faça, porém lembre-se que as resoluções mais poderosas de novo ano envolvem intenções tão poderosas quanto. Respeitar a vida, seja ela animal, vegetal ou mineral é sinônimo de amor, compaixão e sabedoria espiritual. E o mundo clama por mudanças. É emergencial que encontremos um caminho de equilíbrio. E tem que começar já. Em nossos lares, escolas, indústrias e na postura de nossos governantes. Mas acima de tudo, dentro de nós mesmos.

Aproveitemos o novo ano que começa a despontar e façamos de seus raios luminosos um vibrante circuito de luz, energia e amor para todos, inclusive o planeta.
                                                                      
                                                                           



Recomendo que você assista. Vale a pena! 





quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Madiba, uma janela de esperança...

                                                               
Poucas vezes na vida fomos surpreendidos por uma pessoa assim. Um homem que chegou feito uma pequena centelha de luz, mas que rapidamente transformou-se em um enorme e lindo sol que a todos iluminou, inspirou e aqueceu com seu amor e boa vontade.
Assim era Nelson Mandela. A prova de que a verdadeira liderança nasce da força interior e da capacidade de um homem em superar as suas adversidades.
Mandela dedicou sua vida ao fim do apartheid lutando corajosamente por mudanças profundas na sociedade, sempre visando a igualdade e os mais fundamentais direitos do homem a justiça, educação e paz.

Hoje Mandela se foi, mas deixa um país que sonhou e criou a partir de um ideal.


Descanse em paz, Madiba!                                                                                  

   

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Olá Dezembro!



Olá Dezembro!      

Mês que envolve o mundo inteiro em uma verdadeira conspiração de amor...





                   Aproveite a boa energia de dezembro e viva seus sonhos...





Verdadeiramente, loucamente, profundamente...


e






terça-feira, 26 de novembro de 2013

De encontros a desencontros...


                                                            


Ele surgiu do nada. E antes que eu pudesse compreender o que estava por acontecer, me empurrou contra a parede, me roubou um beijo e em disparada se foi, sem ao menos olhar para trás.
E eu fiquei ali. Parada, chorosa e assustada.


Sequer sabia o seu nome. Nunca soube. Desde então menino sem nome passou a fazer parte de minha vida, despertando em mim o que nunca soube explicar.


E hoje, tantos anos depois, nós, os protagonistas daquela cena nos tornamos íntimos, mais uma vez.

O menino sem nome voltou. Talvez para me mostrar que
pessoas chegam, nos surpreendem e depois simplesmente se vão, tão rápido quanto chegaram.


E assim foi. 
Em uma manhã me deu seu último beijo e depois saiu sem avisar, porém já sabendo que não iria mais voltar. Fechou o portão com cuidado e se foi, sem ao menos olhar para trás.

E eu fiquei ali. Parada, chorosa e assustada.

Só assistindo. Como quem quer aproveitar cada segundo, na esperança de guardar na memória o que não deveria perder-se jamais.                                                                                                                                                                     



segunda-feira, 18 de novembro de 2013

A Pietá que vive dentro de todas nós, mães e mulheres!

                         Imagem: Samuel Aranda


Tempos atrás, a imagem acima circulou em vários canais de tv, internet, ou seja, rodou o mundo e foi muito comentada. E agora ressurge na mídia como a foto premiada pelo World Press Photo/2011. Sem dúvida é uma bela foto, pena que tenha saído de um contexto tão ruim.

Alguns anos atrás tive o prazer de conhecer a Pietá de Michelangelo. Como não poderia deixar de ser, fiquei bastante emocionada com tamanha beleza e perfeição. Michelangelo conseguiu expressar de forma delicada e singela a pior tragédia que pode ocorrer a uma mãe: ter nos braços o corpo do filho sem vida. 
Ocorre que, assim que a vi a foto premiada, automaticamente lembrei-me da Pietá de Michelangelo, pois foi inevitável não fazer comparações, já que elas se assemelham em vários aspectos.

Assim como a Virgem Maria que ampara seu filho morto nos braços, a foto mostra uma mulher muçulmana que ampara um homem ferido após violento protesto no Iêmen. 
E não importa quem ele seja. Pode ser seu filho, um familiar ou até mesmo um desconhecido qualquer, porque mesmo assim, ainda será filho de alguém. 

Ambas as imagens resultam de dor e violência. Ambas retratam mulheres absorvidas por um desespero profundo e silencioso. Um pouco de todas nós, mães e mulheres que acolhemos nossos filhos no aconchego e proteção de nossos braços todos os dias. 

A foto premiada me emociona e me inquieta por sua força, pois apesar da invisibilidade de seu rosto, ainda assim consigo sentir sua emoção, compaixão e impotência diante do horror ao abraçar aquele corpo ferido e talvez sem vida. 

Uma desconhecida, uma mulher sem nome, sem identidade, mas que o mundo conheceu através das lentes do fotógrafo Samuel Aranda, transformando-a em mais um importante testemunho de até onde o homem pode chegar.

Talvez você se pergunte o por que desse assunto, já que as noticias em torno dessa imagem já caíram no esquecimento. Mas talvez seja exatamente esse o motivo, ou seja, não dá para esquecer quando homens, mulheres e crianças viram números de estatísticas. Quando séculos se passam e as cenas se repetem. Quando ódio, ganância, intolerância e desrespeito transformam-se no combustível que gera a desgraça, os conflitos intermináveis, as guerras bestiais e as matanças impiedosas.

Infelizmente os que se foram não podem voltar, muito menos ressuscitar, pois isso é coisa para o filho de uma Maria só. Para nós, simples mortais só nos resta seguir em frente, aprendendo a lidar com a dor, sem deixar que ela nos sufoque.

A Pietá do Iêmen mexeu comigo! É triste ver famílias chorando seus mortos, mas pior é testemunhar a dor de uma mãe ao ter seu filho morto nos braços.
                                             


                                                                          

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

Felizes os que não esquecem...



O que mais pode haver por trás das velhas fotografias dos álbuns de família, além daquilo que conseguimos enxergar? O que elas não nos contam e não conseguem nos mostrar? 

Algumas vezes não basta ter somente uma boa percepção. A imagem além de vista tem que ser lida. Fotografia é como texto, ela nos conta uma história. E muitas vezes é preciso ler nas entrelinhas para poder desvendar seus múltiplos significados.

E ela sabe que há muito a ser contado... 

Com a intimidade de quem cresceu e viveu em cada detalhe da velha fotografia, sabe que há muito mais naquele cenário. Vai muito além do acentuado bucolismo e beleza que envolve o vazio que se vê. Então, enfatizando a necessidade de reavivar os anos de sua infância, ela se lança nas águas mansas daquele passado e nos conta como a vida ali decorria normalmente, sem sobressaltos, sem novidades.

Aos domingos as mulheres vestiam suas melhores roupas, iam à missa, faziam promessas e acendiam velas no pequeno oratório. A elas lhe cabia a tarefa de apaziguar desavenças, manter a casa em ordem e a comida na mesa, ordenhar o gado e cuidar dos menores. 


Nas tardes quentes de verão buscavam abrigo e conforto à sombra da grande árvore, lugar destinado não só ao descanso, mas também era ali que se dedicavam aos pequenos trabalhos manuais, como coser peças de vestuário, bordar, descascar favas e espigas, e tudo em meio a muita conversa e boas risadas.

À volta tudo era paz. Os gatos dormiam tranquilos, acomodados entre os pés das mulheres, enquanto que os cães corriam de um lado ao outro, acompanhando as crianças que brincavam de queimada. Era aprazível viver de modo tão simples. E todos se divertiam com o pouco que tinham. 

Mas diversão mesmo acontecia aos domingos. E disso ela lembrava com muito carinho. Após a missa toda vizinhança se reunia e tudo virava motivo de festa. E ela gostava daquele movimento. Gostava da conversa alta, da alegria estampada no rosto das pessoas, dos trajes domingueiro, dos amigos que chegavam para comer, brincar e confraternizar. Sem dúvida era o dia mais esperado, onde tudo e todos ganhavam sua atenção. 

Seus olhos corriam de um lado a outro na tentativa de acompanhar o movimento saltitante e colorido das cabeças das meninas que usavam lindos passa fitas, adornando tranças e rabos de cavalos. E era gente chegando que não acabava mais. O colorido se multiplicava. Os odores das comidas que aos poucos se ajeitavam sobre as mesas, se difudiam pelo ar.

E ela, curiosa como só tratava logo de espiar o arranjo de tantas gostosuras. Sua boca salivava. Mas ela era obediente. Sabia que não podia tocar na comida até que todos estivessem à mesa. E acatava sem questionar as instruções de sua mãe, que eram sempre as mesmas, mas nem por isso deixavam de ser repetidas.

E era uma infinidade de iguarias, todas dignas de deixar qualquer um com água na boca. Muitas preparadas a partir da carne mais tenra e suculenta dos animais que ali viviam, em seus próprios quintais. E tudo acompanhado de pães quentinhos, massa ao sugo e o vinho fresco. 

Naquele tempo crescer cercada por muitas mulheres - avó, mãe, tias, irmãs, primas - se aprendia rapidamente que cozinha e comida eram o centro de tudo. Era um espaço atraente e caloroso, onde de tudo acontecia. Conversas, sussurros, risadas, lágrimas, enfim, um mundo que ainda lhe era tão desconhecido, mas que entre o fumegar de uma panela e um cheiro e outro que dali brotavam, era o que faziam daquela casa um lar. 

Lugar de sua infância querida. Uma terra de abundância. Um lugar de vida simples onde todos cabiam e eram felizes. Uma casa que cheirava a malva, figo seco, café torrado, carne defumada e lenha queimando verde, custando a arder.

E voltar aquele tempo foi especial. Mas sua viagem terminava ali, do mesmo jeito que começou: Com a velha foto em suas mãos e um punhado de sentimentos no coração. 
                                                                      


         



quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Sobre mulheres e lenços...

                              Jennifer Merendino - vítima de câncer


Mês passado viajei a Novo Hamburgo, minha cidade natal e, como de costume me hospedei na casa de minha prima. Ao chegar sou surpreendida por um convite: um evento social que aconteceria algumas horas mais tarde.Como não havia muito tempo, e ela não aceitava minha recusa, resolvo eu mesma dar um jeito em meu cabelo, pois certamente não conseguiria horário disponível em nenhum salão, muito menos próximo a sua casa. Então dei uma boa lavada, fiz uma touca e pronto! Em poucas horas estaria com o cabelo liso e arrumado. 




Mas aí surge um problema: não tinha roupa adequada para a ocasião. Era preciso sair e comprar alguma coisa. E para minha sorte havia um shopping bem próximo a sua casa. Então, coloquei um lenço na cabeça e fui as compras.
Mas mulheres usando lenço - ao menos na cabeça - não circulam muito por aí, já perceberam? Pois é, eu saí e posso afirmar que é preciso uma boa dose de coragem para fazê-lo. Mas não porque eu tenha algum problema com relação ao uso de lenço na cabeça. Nada disso, tanto que saí. Ocorre que, conforme eu circulava pelas lojas, aos poucos ia percebendo que os olhares eram todos para mim, ou melhor, para nós: Eu e o lenço! Era como se eu portasse uma placa, e nela estivesse escrito: Sim, tenho câncer! A maioria das pessoas me olhavam sem disfarces, enquanto que outras disfarçavam encondendo-se atrás de seus óculos escuros. 
Era possível perceber que cochichavam e desviavam os olhares quando encontravam o meu, o que me fez sentir incômoda, com uma vontade súbita de me tornar invisível.

E não parou por aí. Aquele constrangimento foi tomando corpo a medida que os olhares  cresciam e eram do tipo: Não quero fazer parte disso. Ou então: Ah, coitadinha, tão jovem e doente.

Incrível como é só alguém dizer ou parecer ter câncer para provocar uma comoção aterrorizada. Porém, mais incrível ainda é algumas pessoas sequer conseguirem falar o nome dessa doença. O estigma de doença fatal, associada a uma generosa dose de ignorância e somada ao preconceito - mesmo que seja por parte de uma minoria – é o que transforma essa doença nesse horror. As representações associadas ao câncer são na sua maioria negativas, cruéis e destrutivas. 

Quando se pensa na doença, independente do órgão acometido e de seus efeitos, há um conjunto de sentimentos que encontram-se diretamente associados. A mulher acometida pela doença não tem apenas o seu corpo modificado, mas também diferentes aspectos da sua vida social e afetiva.
Mas felizmente o câncer não é só uma vivência difícil, cheia de medos, angústia e até mesmo rejeição. Não, ele também é sinônimo de cura, coragem, determinação, persistência, luta, amor à vida e muito aprendizado.


E a primeira lição que tem a nos ensinar é que de nada adianta fugir ou negar. É preciso aceitar o que a vida oferece, e a partir daí criar as possibilidades necessárias para reformular os aspectos mais importantes para seguir vivendo. 

                                  
Naquele dia, nos corredores e lojas daquele shopping esbarrei em sentimentos que me fizeram vir aqui, e escrever a respeito. Só quem já passou por isso sabe o quanto é difícil. Portanto, se você não passou, então nem perca seu tempo tentando mensurar, pois certamente não conseguirá sequer imaginar a realidade de conviver com isso todos os dias. É doloroso demais.Minha ida a Novo Hamburgo tinha um único objetivo: Fazer meus exames de rotina, pois em 2009 fui diagnosticada com câncer cervical (colo do útero). Depois de tratado hoje estou curada. Faço exames regularmente, de seis em seis meses somente para controle.

O câncer me fez descobrir algo que só os guerreiros possuem: A vontade de vencer, pois não havia espaço para pensar de outra forma. Não havia fé que me permitisse outra opção. Através do câncer também descobri quem estava comigo para encarar o pior e quem poderia me abandonar ao primeiro sinal de perigo.


 

 
                                                                                       



segunda-feira, 28 de outubro de 2013

E se você morresse amanhã...

                                                           


E se você morresse amanhã, o que encontrariam em suas gavetas? Hoje me deparei com essa frase entre tantas outras e confesso que ela rondou meu pensamento, ganhou espaço e me fez sentir certo incômodo, pois não pretendo me tornar uma senhorinha saudosa, daquelas que ficam debruçadas sobre o passado, lembrando do que poderia ter sido e não foi.

E sempre que ouço alguém falando a respeito de algo que sonha fazer, mas não faz, e não porque não queira, mas sim porque ainda não despertou para o fato de que intenção é um campo de possibilidades realizáveis, mas que depende somente de nós mesmos, percebo claramente o quanto deixamos de viver.

Sendo assim chego a seguinte conclusão: Não vasculhe minhas gavetas! Não perca seu tempo, pois nada irá encontrar. Se me queres, então fique comigo agora. Suas chances são bem maiores hoje, do que me encontrar amanhã, no fundo de uma gaveta qualquer. Aproveite os momentos que a vida nos contempla no agora, pois ele sim, pode nos trazer a chance de aproveitarmos plenamente cada coisa.

Mas se mesmo assim, um dia você quiser perambular por minhas gavetas e remexer em meus guardados, faça, mas o máximo que vai achar serão meus objetos órfãos e já tão inúteis. Apenas testemunhos do meu fim. 

E de nada adiantará ingressar em viagens sentimentais entre memórias e quinquilharias, porque lá não vou estar. 
Recuperar um passado perdido nas brumas de uma lembrança, não irá me trazer de volta. Nem tão pouco meus sonhos, emoções ou tudo aquilo pelo qual meu coração bateu um dia.

Aí você sentirá saudade. E tudo o que você terá, será o silêncio de minha companhia em uma foto qualquer. Meu corpo oco, frio e vazio. Aí minha insônia será sua. E no nascer do dia você ouvirá os primeiros carros passarem, as primeiras janelas se abrirem. E a noite, ao voltar para casa eu não estarei a te esperar. Então, a única companhia será a sua. Aí você entenderá que a vida passa e que só lá na frente nos damos conta de apreciá-la. Quando já se tornou passado e não retorna mais.

Não adianta regar flores mortas. Tão pouco sementes secas, porque dali nada brotará. Por isso me despeço do lixo e inutilidades que guardo nas minhas gavetas para poder viver plenamente o agora, pois ele é minha garantia de que estou viva, pulsante, cheia de intenções e vontades para concretizar.










                                                                                                                                           

sábado, 19 de outubro de 2013

Peneirando meu deserto...

                                                         



Hoje revisitei o deserto. E naquele terreno árido, digno e merecedor do meu respeito mais intenso, onde a areia é senhora de tudo e as dunas reinam douradas, ondulantes, belas e silenciosas, peneirei meu deserto. 

Um cenário lindo, sem dúvidas. Mas há quem não se sinta bem com a imensidão do deserto. Há quem não consiga calar suas vozes, cessar seus ruídos e viver sua paz. Há quem desconheça que seu deserto não é feito só de dunas, vento, pó e areia fina. 

Hoje, em uma tarde quente e ensolarada, quis o destino mais uma vez me levar até as portas do meu deserto. Então prontamente aceitei seu convite e fui. E assim como um garimpeiro, que com um olhar certeiro procura por suas pepitas, reencontrei-me com minhas preciosidades.

Mas o que faz uma pessoa querer peneirar seu deserto? Para mim talvez fosse a possibilidade de reconstruir o meu mundo. Nem melhor, nem pior de outros que já conheci. Apenas o meu mundo, na medida da minha imaginação e dos meus sonhos. 

E hoje, ao viajar por esse deserto não me deparei com um ambiente árido e inóspito. Ao contrário. Encontrei o éden, um lugar onde finalmente pude correr livre para existir e cumprir o que me cabe e com liberdade para ser quem sou.  

Já viajei por esse deserto, não uma, mas inúmeras vezes. Peregrinei por suas areias escaldantes, palmilhei incansável quilômetros de dunas, porém nunca perdi a direção, sempre encontrei o caminho de volta. 

O deserto sempre irá me acompanhar, mas sua solidão, seu silêncio e toda aquela sensação de horizonte inatingível, isso tudo definitivamente ficará para trás. 

Chegar até aqui foi solitário e doloroso. Não fosse a força indestrutível da vida me mostrar o caminho, talvez não tivesse consciência plena da vida e de mim mesma. 

Hoje já não sou só mais um grão de areia em meio ao deserto. Hoje atendo ao chamado. Sou mulher. Sou livre para existir. Sou inteira, divina e selvagem. Sou como as lobas. 


**Este post é dedicado a Cristiane Marino, do Blog Mulheres em Círculo, que entrou em minha vida com "pequenas doses diárias de alegrias" através de suas postagens. E minha alma agradece por tanta generosidade! 






                                                                         

sábado, 5 de outubro de 2013

Muito cedo a vida ficou tarde demais para mim!


                                                                 
          “Muito cedo a vida ficou tarde demais para mim" 
                            Marguerite Duras                                                               


Como chuva forte em dia de tormenta, como aguaceiro que destrói e aniquila, esvai-se assim, a vida da pobre menina.

Com seu mundo de cabeça para baixo, após roubar-lhe a inocência, arrancar-lhe as esperanças e a deixar entregue a própria sorte, então já não tendo mais o que destruir, a chuva se vai, levando consigo o melhor da pobre menina.

E assim começa sua história. E será contada aqui de uma forma não tão agradável nem tão feliz. Mas como lhe coube.
                                 
Era uma vez um lugar sombrio e assustador. Lugar onde criança alguma queria chegar. Lugar onde a infância se fazia noite e a escuridão imperava opressiva e esmagadora.

Nesse lugar sinistro e desafiador habitava um monstro cruel e grotesco. Uma criatura sem paz. Um ser que vagava pelas sombras da maldade patológica, a loucura certificada, a doença justificada - como se violência permitisse explicações ou justificativas. Um ser que vivia entre limites tênues e variáveis.

E ele vivia a espreita. Sempre com seu jeito rude e nervoso, impaciente ele esperava. Olhar atento, músculos tensos, mãos inquietas e voz alterada.

E ela reconhecia cada um daqueles sinais. 
E como ela odiava aquilo tudo. 
Odiava com todas as suas forças a violência que todos aqueles sinais representavam.

O ambiente era sempre tenso. Expunha seus piores dramas. E para ela já não havia mais saída, só destruição. E tudo o que ela mais queria era poder mudar sua história. Mas não tinha voz

Eles eram dois extremos de uma mesma história. Uma ponte frágil e curta que ora aproximava, ora afastava.

Talvez um dia ela entenda os abismos de seu pai. Seus delírios mais profundos e suas andanças a outras dimensões.

O monstro daquela menina não vivia em baixo de sua cama, dentro de um velho armário ou em algum lugar qualquer de sua imaginação. Ele era vivo e real. Habitava entre o mal e a bondade que raramente dava mostras de sua existência. Habitava no abismo imenso que a decepção escavou lenta e dolorosamente. Habitava nos incontáveis conflitos, nos sentimentos contraditórios, 
nas atitudes condenáveis e no limbo da incerteza inquietante.

Mergulhar no passado e evocar a infância vivida ao lado do pai é como espinho na carne. Dói, machuca e incomoda. Durante muito tempo inutilmente ela tentou lutar contra esse passado, e muitas vezes ingenuamente anunciou o seu fim. Mas ele só se deu quando ela finalmente entendeu que quando não compreendemos a dor, ela nos dilacera, mas quando entendemos seus fins, ela nos fortalece. 










                                                      

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

O Chamado


                                                                          


Ainda que a contragosto, ela se levanta. Com a intimidade de quem conhece o lugar, caminha pela penumbra e vai em direção a janela, onde pequenos fragmentos de luz atravessam suas frestas denunciando que já se fazia tarde. Pacientemente ela recolhe as cortinas, abre a janela e permite que a penumbra se desfaça, revelando sua silhueta esguia e delicada. Há tanta luz no pequeno quarto que ela pode visualizar até a mais minúscula partícula de pó suspensa no ar.

Aos poucos toda aquela luminosidade vai transformando-se em um calor gostoso e acolhedor. Sentindo o aconchego do momento, ela recusa-se a sair. Volta até sua cama e com movimentos desordenados tenta acomodar-se. 
Isso feito, suaves suspiros escapam-lhe por entre os lábios. São tão leves e compassados que mais parecem um sopro saindo de sua alma. Ela adora o aconchego de seu quarto. Ao menor sinal de perigo, é ali que ela quer estar. É no pequeno aposento que suas angústias são abrandadas. 

Mas ainda que reconfortante e terapêutico, há que levantar. Ela 
toma coragem, avalia o trajeto até o espelho e segue em sua direção. Mira-se por alguns segundos e, na tentativa de arrumar seu cabelo em desalinho, passa os dedos por entre seus longos e sedosos fios e o separa em mechas, fazendo uma espécie de trança. E assim permanece, sem pressa até que esteja terminado.

E talvez permanecesse assim, perdida em seus pensamentos em frente ao espelho, não fosse o ruído insistente de seu estômago alertando que já é hora de descer e preparar o café. Então rapidamente finaliza com seu cabelo, busca alguma coisa confortável para vestir, passa pelo banheiro e finalmente desce as escadas em direção a cozinha.

Porém, antes de chegar é interrompida pelo mundo lá fora, pois 
ao passar em frente a janela não pôde deixar de perceber que algo novo acontecia em seu jardim. Decidida a saber do que se tratava, prontamente serviu-se de uma xícara de café e foi até a porta.

Fazia um silêncio profundo naquela manhã. Tão profundo que era quase possível escutar o mais suave dos movimentos, como o de seus delicados pés, descalços ao deslizar e mover-se pelo velho piso de madeira.


Não havia pressa. Não havia angústias naquela manhã. Somente silêncio.

E assim que chegou a porta, abriu-a. Então uma brisa leve e fresca tocou-lhe a face. Era suave e muito delicada. Talvez ainda um pouco gélida, porém trazia consigo um adorável aroma de lavanda que ela imediatamente identificou, ao senti-lo entrando por suas narinas e percorrendo seu corpo até que finalmente invadisse seus pulmões, deixando-a inebriada de tanto prazer. O sol, por sua vez, timidamente tocava-lhe a pele como ondas suaves e macias, banhando seu corpo com luz e calor. 

Tudo parecia surpreendentemente mágico e especial. Por isso ela continuou a observar. E o que viu foi revelador.

Ela vive na casa a muito tempo, porém somente naquele dia deu-se conta que ali, em seu próprio quintal existia um lindo jardim. Então intrigada perguntou-se: Ele sempre esteve aqui? Se esteve, por que só hoje eu consigo vê-lo? Será que é porque o dia está bonito, o céu está límpido e o sol brilha com toda sua força? Pode ser - pensou- mas muitos dias assim já aconteceram antes, e eu nada vi.

Depois de hibernar durante o intenso inverno, finalmente a natureza começava a renascer. O jardim parecia incrivelmente vibrante e intenso. Pássaros cantavam com extraordinária beleza e o vento gentilmente encarregava-se de levar até seus ouvidos, belas e doces melodias. 

Beija-flores eram atraídos pelas mais diversas cores e néctar das inúmeras flores que desabrochavam nos canteiros. Sabiás laranjeiras cantavam magistralmente anunciando que era chegado o tempo de acasalamento. Bem-te-vis, tico-ticos, pardais, enfim, pássaros de todas as espécies cantavam e regozijavam alegres e saltitantes por entre árvores e arbustos.

Tomada por um desejo intenso de assimilar tudo o que acontecia e desfrutar de toda aquela deliciosa experiência sensorial, ela prontamente decidiu abandonar sua rotina diária e render-se aos prazeres daquela manhã tão mágica e especial. Olhou para os lados, procurou pela cadeira mais próxima e foi em direção ao jardim. Sentou-se em meio ao canteiro de lavandas e relaxou. E pela primeira vez, depois de muito tempo ela sentia-se parte de alguma coisa. Sentia-se viva, inteira e presente.

Com o sol cada vez mais quente, pequenas gotículas de suor começavam a brotar de sua pele branquinha e macia. Mas ela não se incomodou, nem percebeu. Estava tão embriagada por toda aquela atmosfera de encantamento e a deliciosa fragrância suave que pairava no ar, que nem se deu conta.

Não sei precisar o tempo que ela ficou ali, silenciosamente, apenas observando a vida a sua volta. Mas sei que foi tempo suficiente para fazê-la perceber que outras portas deveriam se abrir para que a vida, enfim, pudesse fluir. Talvez ela não tivesse clareza do que queria, mas naquele momento tinha certeza de que não queria mais viver ao meio, partida, dividida e incompleta. Ela não era assim, mas sentia-se assim.

E toda aquela atmosfera poética soava como um chamado. Como se  a vida em forma de um sopro em seu ouvido lhe gritasse e implorasse: Desfaça todos os nós, eles apertam e sufocam. Deixe o ar entrar, e então, apenas respire. Depois despeça-se de tudo aquilo que precisa deixar partir para só então celebrar e aceitar tudo aquilo que precisa vir. Pare de fugir, esconder-se de tudo e todos. Liberte-se dessa vigília constante e irritante. Liberte-se dessa vidinha rígida, chata e triste. Vidinha essa que só tende a se estreitar e te apagar.

Definitivamente essa não era a vida que ela queria. Não que ela pensasse em sair por aí, oferecendo sua cara a tapa, nada disso. Ela só queria entender porque muitas vezes escolheu se fechar quando poderia ter sido mais feliz. Mas ela não tinha as respostas, e talvez nunca as tivesse.

E no silêncio ela permaneceu, mergulhada em seus pensamentos e refletindo sobre a única certeza que tinha: Não queria mais perder tempo buscando explicações lógicas e racionais para tudo. Não queria mais sentir-se melancólica e com a triste sensação de que sua própria vida não lhe pertencia.Era preciso libertar-se de seus temores, vencer suas resistências, reavaliar suas crenças e sair da mesmice em que se encontrava. 

E assim como o jardim, ela precisava florescer para novamente recolocar sua vida em movimento. Precisava dar os primeiros passos para libertar-se das ideias pré-concebidas, das tradições mal explicadas, dos costumes sem sentido e de tudo mais que arrastamos inutilmente ao longo da vida.

E foi então que ela levantou-se, apoiou sua xícara sobre a cadeira, e um pequeno sorriso surgiu em seus lábios. Não era só um dia bom, mas sim um dia espetacular e revelador - pensou.

Naquela manhã, ao abrir a porta que a levou até o jardim, algo mágico aconteceu para mostrar-lhe o caminho a ser seguido. Foi como um lembrete que de uma forma muito sutil chegou para mostrar o quanto ela havia se desviado de sua essência. E se ela não conseguia ver o jardim, era porque estava presa aos seus medos e ao seu cotidiano. 

O jardim sempre esteve lá esperando pacientemente por ela, assim como todo o resto. Mas as vezes não conseguimos ver. Por isso, felizes são aqueles que reconhecem os valores revelados através da fragilidade  humana. Os que reconhecem que a vida pode seguir muito bem sem precisar da dureza da razão. Os que reconhecem e são capazes de evoluir através dos duros golpes que a vida nos dá, assim como são perfeitamente capazes de reconhecer e aceitar quando ela gentilmente quer nos ensinar.