domingo, 11 de fevereiro de 2018

Egito, do caos ao extase!



Ao longo dos anos minha ideia sobre o Egito foi sendo construída através da beleza de sua história, na importância que o Egito Antigo tem na história da humanidade, e também sua civilização, pois o avanço do Egito em relação às demais civilizações da época era notável. Muito antes dos romanos, faraós já edificavam grandes construções e davam origem às primeiras versões do que viriam a ser as Pirâmides do Egito.

E acabo de voltar de uma viagem por esse país impactante e cheio de contrastes. Desde Luxor, onde vida e morte ocupam cada uma sua margem do rio Nilo, sendo na ocidental o Vale dos Reis e Rainhas, territórios sonhados por arqueólogos e, na oriental o Templo de Luxor e Karnak,  que com suas colunatas imensas que abrem praças e se fecham em corredores, são de tirar o folego.  

De Luxor embarcamos em uma viagem de quatro dias pelo Rio Nilo, fonte de vida indispensável num país que tem três quartos do seu território em ambiente desértico. E foi uma experiência intensa em todos os sentidos. Observar a paisagem desenhando-se pelo caminho, somado ao silêncio e as cores às vezes entediantes e áridas do deserto, só se superava quando dava lugar ao verde vivo das palmeiras e plantações. Era a vida que voltava a existir nas mulheres vestidas de negro da cabeça aos pés que timidamente nos acenavam desde a margem. Nas crianças que brincavam e nos gritavam em coro “alo”, como quem diz: Estou aqui, me veja. Nas casas simples, feitas de tijolos de barro e cobertas com folhas secas de palmeira. Na proa, acompanhando o pôr do sol descendo lentamente e dourando as águas do Nilo, um dos mais espetaculares que já testemunhei em minha vida.

E deixando templos e sarcófagos para trás, finalmente chegamos ao Cairo. Um lugar tão sonhado e esperado. Mas o Cairo não se explica. Se vive. É uma cidade caótica, pulsante e sem filtros. A cidade das pirâmides, única sobrevivente das sete maravilhas do mundo parece estar em permanente construção. A areia do deserto esta por todas as partes e parece reclamar o seu espaço. No ar, nas ruas, nos poros, casas, prédios, e é ela que confere a cor característica e uniforme que vemos por toda cidade - há dias em que céu e terra se fundem em uma única cor, geralmente quando ocorre uma tempestade de areia vinda do deserto.

O Cairo é conhecido como a cidade dos mil minaretes, embora existam muito mais. E é justamente daí, dos minaretes que partem simultaneamente e se propagam pelo ar, as vozes dos almuadens, num chamamento melódico à fé islâmica e que dura cerca de três minutos, convocando os muçulmanos para uma das cinco orações obrigatórias do dia. É uma espécie de ladainha que repete a frase “Allah hu Akbar” (Alá é grande) e atesta fé islâmica: “La ilaha ilia Allah, Muhammad rasul Allah” (Não há outro Deus que não Alá, e Maomé é o profeta de Alá).

É a maior cidade do continente africano. A mais populosa do mundo árabe e uma das 15 maiores metrópoles do mundo. Uma mescla do passado que se faz presente no Cairo Antigo, região histórica da capital tombada como Patrimônio da Humanidade pela Unesco. Um complexo formado por mais de 600 monumentos que datam do século XII ao XX, como a fortaleza de Saladino, construída em 1183 pelo líder do levante contra os cruzados, a Mesquita de Mohamed Ali, feita em alabastro e no estilo turco-otomano, a Mesquita de Al-Azhar, a mais antiga do país, que data o início de sua construção no ano de 970, e hoje é sede da universidade mais antiga do mundo em atividade. Ali também está o mercado Kahn El Kalili com suas ruelas estreitas e muitas vezes sem saída. Um verdadeiro labirinto onde é possível encontrar e comprar de tudo, pois os egípcios são exímios comerciantes. Basta sentar-se em um dos bares e cafés para degustar um karkady, o típico chá vermelho de hibisco ou chá de menta, que em seguida homens, mulheres e crianças oferecem uma enorme variedade de produtos e serviços. Ali mesmo poderá ter seus sapatos lustrados, comprar um lenço, relógio, tâmaras frescas e pechinchar por qualquer bugiganga que lhe ocorra. E tudo isso durante um gole de chá.

Voltando para o centro da cidade, por onde quer que se ande o transito é confuso e perigoso. Não há policiais de transito nem tão poucos semáforos – em toda cidade do Cairo há somente cinco semáforos. Talvez isso explique porque os motoristas dirijam com a mão na buzina. Além disso, há muitas carroças com tração animal que dividem espaços com carros velhos, motos, vans e camionetas carregadas de gente praticamente penduradas, quase caindo para fora. Na prática não existe regra ou código de trânsito. É uma verdadeira loucura, principalmente para o pedestre que, ao cruzar uma rua precisa costurar no meio dos automóveis, buscando uma maneira de fazer essa travessia quase impossível, perigosa e mortal. Muitos simplesmente se precipitam, pois não há outro jeito. Só mesmo contando com a sorte. E o problema para o pedestre não para por aí, pois as calçadas muitas vezes são inexistentes ou estão cheios de lixo e obstáculos. É preciso estar atento ao caminhar pelo Cairo.

Mas se no trânsito não há policiamento, já na cidade é possível ver soldados do exército armados com fuzis espalhados por vários pontos. Inclusive para cruzar o portão do nosso hotel o carro que nos conduzia era inspecionado por cães. E ao ingressarmos no lobby tínhamos que passar obrigatoriamente pelo detector de metais, como aqueles encontrados na área de segurança dos aeroportos. Tudo para nossa própria segurança, como dizem eles. Na verdade a cidade está muito bem controlada no que diz respeito ao terrorismo.

O Cairo dos becos sujos e palácios encontra-se gente de todas as classes sociais, inclusive famílias que vivem em um cemitério que se estende por mais de dez quilómetros ao longo de uma autoestrada. Vivem ali mais de um milhão de habitantes, segundo estatísticas. Al'Arafa ou, o cemitério,  criado no século VII, quando os árabes conquistaram o Egito, possui construções fúnebres que pouco lembre um cemitério ocidental, mas mantem a tradição egípcia de sepultar seus mortos em moradias que permitissem a suas famílias passar junto a eles o luto de 40 dias. E como a ocupação necrópole continua sendo oficialmente ilegal, não há serviços públicos como esgoto, luz, água potável e coleta de lixo. Mas, ainda assim esse superpovoamento se explica, pois é grande a dificuldade socioeconómica em conseguir um lar no Cairo.

Enfim, esse é um pouquinho do Cairo e seus conflitos. Uma cidade imensa e cheia de problemas. Um lugar fascinante e que desperta sentimentos contraditórios. Uma cidade que não dorme. Que não descansa. Que está sempre em contínuo movimento. De mulheres que investem em tornar vistosas as únicas partes do corpo expostas ao mundo: rosto e mãos.

Um Cairo que oscila entre uma vida tradicional que na sua essência assenta em preceitos religiosos, e os elementos de modernidade que, entretanto vão chegando. O que inevitavelmente fará com que os cairotas mais instruídos e os menos favorecidos confrontem seus desejos mais secretos versus a obediência mais ou menos cega aos preceitos tradicionais da religião islâmica. E, óbvio, as profundas desigualdades sociais e econômicas completarão o cenário.

De Luxor ao Cairo, essa foi uma experiência marcante. Vou carregá-la comigo para sempre nas imagens e aromas que se misturam livremente em minhas memórias. É o Egito que sempre imaginei desde os livros de historia, mas agora com vida. E uma vida muito mais interessante que a imaginada. Uma das mais antigas e enigmáticas regiões do globo terrestre. Terra de divergências e conflitos recorrentes de paixões e ódios, mas também de um passado histórico incomparável. E mesmo assim, país de gente hospitaleira. Um lugar onde ninguém me insultou, maltratou ou desrespeitou.


Um país que, disseminado muitas vezes como viveiro de malfeitores, é também terra de gente da paz, boa, culta e generosa. Gente que faz da hospitalidade uma arte. 




















quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

Por que as pessoas andam tão loucas?




Já observaram como as pessoas estão mergulhadas em conflitos de toda ordem e sem pontos de referência que as orientem no caminho de uma melhor condição de existência?  Que navegam à deriva em um mundo marcado por profundos paradoxos?

Se de um lado se apresentam aspectos que apontam para um desenvolvimento exuberante, de outro se convive com uma barbárie primitiva e desesperadora. Jamais houve tanta possibilidade de se construir um verdadeiro paraíso neste planeta, contudo, jamais houve tantas diferenças que reduzem as condições da maioria de seus habitantes a um verdadeiro inferno.

Nossa sociedade não está saudável mentalmente. As pessoas tornaram-se agressivas, inadequadas, invasivas, exageradas, dramáticas e estão sempre com uma necessidade desesperada de fazer-se notar. Ontem mesmo andava por uma avenida movimentada de Buenos Aires quando, ao cruzá-la me chamou atenção uma mulher de uns 30 e poucos anos que vinha em minha direção, pois usava um short jeans extremamente curto e muito, mas muito apertado. Tanto que sua periquita parecia querer saltar para fora. Confesso que dei uma olhada rápida e discreta, já que era inevitável, pois ela realmente chamava muita atenção.  Mas logo olhei em outra direção e segui tranquila, até que fui surpreendida por seus gritos: Sos una tarada y invidiosa. Ou seja, me chamou de tarada e invejosa.

Obviamente que formulei meu próprio veredicto visual mesmo quando meus olhos se desviaram rapidamente, o que não impediu que se abrisse uma série de leituras sobre aquela pessoa. E sua reação agressiva e descontrolada só me reafirmaram o que pensava.

O certo é que venho observando o comportamento das pessoas e percebo que andam muito loucas. E dizem que o problema é porque numa sociedade totalmente competitiva como a nossa, tudo caminha à agressão. Uma olhada, uma palavra fora de contexto ou, se invadimos um milímetro o espaço vital do outro, já é motivo para confusão. E a consequência não é apenas enfrentar os efeitos da agressividade, mas também muitas vezes até lidar com a culpa, pois geralmente são pessoas belicosas, que de uma situação banal a transformam em algo bem maior. E aí até acreditamos que fizemos algo errado, quando na verdade não, pois autenticidade não implica em ser grosseiro ou rígido, muito menos elevar o tom de voz. Isso só demonstra ansiedade e falta de controle de quem o faz. Mas isso tudo me serviu como reflexão.

Como entender o ato agressivo, violento e antissocial que está se tornando norma? Sei que os extremos assolam nossa sociedade. Que as cidades se adensam e aceleram a cada dia. Mas penso que seria um erro imputar tal fenômeno somente a injustiças pessoais, sociais ou as traições e decepções que vivenciamos diariamente, porque a verdade é que o sujeito agressivo apesar de sua conduta imponente se sente na maioria das vezes totalmente dependente do outro. E a agressão nada mais é que sua resposta fisiológica não apenas a politica econômica, mas também está dirigida a esconder todos os sentimentos ou emoções negativas que carrega dentro de si por outras inúmeras razões.


Enfim, o agressivo deve aprender que a sua verdade, seja ela qual for, pode até ser transcendental, mas jamais poderá justificar a submissão plena do outro. E a amargura que carrega será sempre uma defesa perante sua cruzada.  Quase sempre mal sucedida, óbvio. 




sábado, 3 de fevereiro de 2018

Itinerário Solidão...




Foi sabendo um pouco mais que nada, e com um mapa aberto na cabeça, que lá cheguei pela primeira vez. E debaixo de um céu sem fim a estrada fatiava a imensidão de terra plana e desocupada.

No inicio tudo era intenso, seco e árido. A planície comprida demais. As montanhas lá longe, altas demais.  O espaço sobrava. O silêncio brotava. Era algo tão diferente da experiência das grandes cidades com seus excessos, ruídos e movimentos. Algo tão diferente daquela solidão acompanhada.

Não sei precisar o tempo, mas logo chegamos à cordilheira. E já dava para ver que a neve conspirava com as montanhas. E entre os imensos paredões de pedra e gelo, o céu desaparecia por alguns instantes. E quando reaparecia inteiramente cinza, se grudava nos cumes inteiramente brancos.

Eram dois mundos que coincidiam e se complementavam naquela brumosa e gélida manhã de setembro. E o que poderia ser monotonia e cansaço pouco a pouco se transformava em desafio. Já não havia cores. Já não se enxergava nada, nem mesmo o veio da estrada. Só um horizonte achatado e a neve que caia incessante e indiferente.

E o ritmo da travessia se dava através da imagem construída entre as brumas e a baixa luminosidade. Mas mesmo assim, seguimos obstinados. E nesse misto de aventura e peregrinação, o cenário era perfeito para celebrarmos o acaso e a perfeita harmonia com o silencio e a solidão.

Lembro-me de um segundo de luz. Fria. Uma pequena réstia de luminosidade e logo o mundo lá fora voltava a ser gris novamente.

Essa é a memória nostálgica de uma viagem através da Cordilheira Chilena realizada em setembro de 2016. Um percursso sentimental onde descobri que a geografia do amor não é, e não precisa ser tão rude quanto os caminhos sinuosos e escarpados das montanhas andinas.















quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

O prazer de presentear...



Está aberta a temporada de presentes e expectativas para quem dá e recebe. E também para o comércio, que passou longe de um ano lucrativo. Mas enquanto há afetos e relações sociais, também há esperança.

Presente não é só um fato econômico ou uma invenção do mercado e da sociedade de consumo. Dar e receber presente são uma das mais antigas atividades humanas e serve essencialmente para comemorar datas, fechar acordos, felicitar alguém, expressar gratidão ou simplesmente reafirmar relações. Presentear é uma das melhores maneiras de demonstrar gratidão e carinho e, recebe-lo nos faz sentir queridos e especiais.

E o mágico de dar um presente é que quando o fazemos, também estamos desfrutando. Damos e recebemos ao mesmo tempo. É um costume que ajuda a manter as relações pessoais e de negócios funcionando bem, pois, como se diz, presente é agrado e, consolidar relações sem agrados fica meio complicado.

E um bom presente não precisa necessariamente ser caro. Ao contrário do que muita gente acredita, dinheiro não é garantia de um presente perfeito. O valor gasto não tem a menor importância. O que deve pautar a escolha é a observação do estilo de vida da pessoa que vai ser presenteada. Saber dividir o “eu” do “outro” na hora da escolha. Saber transmitir uma mensagem de consideração e carinho.

E para ser um bom presenteador, daqueles que conseguem arrancar sorrisos sinceros dos presenteados, é fundamental dispor de tempo para se dedicar à procura de uma lembrança com algum significado. O presente carrega uma mensagem subliminar. Por meio dele se expõe a consideração que se sente pelo outro. Sendo assim, os bons presenteadores sabem que um presente tem o poder de reforçar ou enfraquecer relações, dependendo da maneira como a pessoa se sentir após o agrado: prestigiada ou, na pior das hipóteses, ofendida.

O fato é que, na prática, todo mundo tem de dar presentes. Desde sempre. Alguns sentem grande prazer em presentear, outros nem tanto. E outros somente presenteiam porque se sentem obrigados. Enfim, as pessoas presenteiam por diversos motivos e o ato de presentear está extremamente relacionado à dimensão simbólica.

Por isso, antes de planejar qualquer compra, é essencial avaliar o grau de intimidade que se tem com quem irá receber a lembrança e em que ocasião ela será dada. Isso demonstra preocupação em não desagradar o presenteado com qualquer coisa sem significado. Um presente que certamente será esquecido no fundo de uma gaveta ou devolvido à loja no dia seguinte.







domingo, 10 de dezembro de 2017

E o que seriam os desafios?





Descobri o verdadeiro conceito da palavra desafio quando, aos 52 anos resolvi ingressar em um projeto até então muito, mas muito desafiador: Abandonar uma relação de muitos anos e viver só. Um projeto de mudanças significativas, intensas e um verdadeiro “divisor de águas”. 

Dizem que desafios são pontos de ruptura, ações que não temos certeza se estão dentro do nosso campo de possibilidades. E assim é. Tive que processar a saída de uma vida “segura” e deixar para trás minha zona de conforto e assumir com total responsabilidade tudo o que diz respeito a mim mesma, ou seja, minha vida pessoal, financeira e profissional. E confesso que no início foi assustador, porém, depois de dois anos já consigo cumprir com boa parte de tudo aquilo a que me propus.

E o importante é acreditar no que desejamos para a nossa vida e potencializar nossas ações em direção a isso. Esse é o ponto de partida para construirmos a nossa história e conquistarmos o mundo que queremos para nós, e realizarmos os nossos sonhos.

Estabelecer desafios é sempre importante. E encontrar algo que seja grande o bastante para inspirá-lo também. Portanto, se a primeira vista o desafio lhe parece impossível de realizar, aí está uma boa pista de que você tem uma ótima oportunidade em suas mãos. E digo isso por experiência própria, pois todos tentaram de alguma forma me convencer de que seria impossível aos 52 anos e sozinha,
reconstruir minha vida. O que me fazia sentir ainda mais otimista, confiante e com a energia necessária para não permitir que meu espirito relaxasse e cedesse ao ócio, ao lugar comum, a mesmice e a conformidade, pois esse é o caminho para que se instalem as doenças do corpo, mente e coração. Por isso, não se deixe influenciar pela opinião alheia.

Hoje foco no presente e projeto meu futuro.  Já não alimento e tão pouco lamento o que não ocorreu no passado. Transformo os meus dias no melhor que posso e aproveito ao máximo o prazer de cada nova conquista, agradecendo sempre pela coragem de saltar a tempo da tediosa roda dos dias iguais. 




quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Criatividade - Fugindo dos rituais mecânicos...





“Toda arte é a confissão de que a vida não basta” Fernando Pessoa

A frase me soa como uma espécie de reconhecimento de que a vida cotidiana não é suficiente. E talvez não seja mesmo. O cotidiano pode ser monótono, rotineiro e superficial.

Contudo, podemos usar a imaginação e criar alternativas para fugir da vida prática, dos cálculos ensaiados, das paredes contabilizadas e do ritual mecânico, tedioso e nada romântico da sala de jantar. Porque a vida muitas vezes só precisa de um toque de criatividade para produzir em nós aquela sensação que faz emergir situações que, embora nunca concretizadas, representem nossos sonhos jamais adormecidos.

Criatividade ajuda a promover a felicidade. Não há como negar. Por isso improvise, crie. Procure novas e inéditas formas de ver, entender e fazer as coisas, porque nada de agradável acontece espontaneamente. As pessoas felizes sabem que a felicidade não cai do céu, muito menos acreditam que esteja pronta.

As pessoas felizes entendem que a felicidade é a obra de uma vida construída dia após dia. Portanto, como não está acabada, é um projeto pessoal que pode ser refeito, modificado, adaptado, criado e recriado. É um processo criativo que, mesmo entre escombros, pode nos salvar e dar certo.



Pense nisso...





sábado, 5 de agosto de 2017

“The Lost Honour of Christopher Jefferies”



Acabo de assistir o filme que aborda o drama vivido pelo professor aposentado Christopher Jefferies que, até então, gozava de uma vida tranquila e uma reputação intocável quando, injustamente passa a ser apontado como o principal suspeito na morte de sua inquilina, a estudante de arquitetura Joanna Yeates, ocorrido na cidade de Clifton, Inglaterra, 2010.

Jefferies então é levado à estação policial e lá interrogado a exaustão. Por vários dias é mantido preso, porém, mesmo sem evidencia alguma diariamente sua imagem está presente nos jornais britânicos que o descrevem como um homem estranho, solitário e excêntrico, principalmente por seus trejeitos, que para a maioria não era nada convencional, mas suficiente para que o condenassem por isso.

E enquanto a trama seguia inúmeras reflexões surgiam, principalmente no que diz respeito aos limites entre o direito à honra, a intimidade e a imagem da pessoa investigada e o direito e respeito à liberdade de informação.

Muitas perguntas surgiram e muitas historias como a de Christopher Jefferies me vieram a mente. Histórias de pessoas que foram vítimas de investigações cheias de falhas e execradas pela imprensa sensacionalista e manipuladora. E óbvio, com a conivencia de uma plateia sedenta em julgar e opinar, quando na verdade não possuem nada em que fundamentar sua opinião ou juízo. 

Mas para essa gente pouco e nada é suficiente para destruir a vida alheia – a cena em que Jefferies chega a sua casa e se depara com todos seus pertences espalhados e sua intimidade devassada é de cortar o coração. Por isso não me deixo levar pelas aparências e tão pouco acredito cegamente em tudo que assisto ou leio por aí. Disseminar informações duvidosas e que não estejam respaldadas com a verdade e de forma deliberada só nos torna colaboradores de mais injustiça e difamação

Ou seja, assegurar o direito à informação não significa desrespeitar o direito a intimidade e a vida privada, muito menos denegrir a honra e a imagem de alguém. Mas infelizmente isso acontece muito, principalmente na internet, onde a informação que nos chega geralmente vem carente de uma verdade e razão. Não há atenção ao que é realmente importante e relevante. Qualquer notícia rapidamente pode ser qualificada ou desqualificada, confirmada ou negada, aprofundada ou rejeitada por milhões de pessoas. E sem o mínimo conhecimento, somente amparada no argumento de que todos têm direito a expressar-se, o que obviamente é uma mentira, já que pessoas e muitos meios de comunicação atropelam leis, invadem a privacidade das pessoas e usam de má fé no tratamento das noticias, pois o que vale é a ilusão e o burburinho que a mesma possa causar. 

The Lost Honour of Christopher Jefferies é um filme lindo, sensível e com cenas bem amarradas. É impossível não se comover diante de sua particular cruzada ao buscar recuperar sua honra, dignidade e, principalmente seu direito à intimidade.  

E foi graças a essa luta que finalmente logrou responsabilizar os meios de comunicação pelo desastre em que deixaram sua vida. Obteve não somente uma indenização por danos morais, mas também a publicação de um pedido de desculpas como parte de uma compensação moral, pois o julgaram não pelos seus feitos, mas sim por ser diferente.